
Eliza Mense (camisa listrada, à esquerda), Neiva Guedes (de colar vermelho, ao centro) e equipe WCS Brasil, na apresentação do Instituto Arara Azul (Foto: Samuel Simöes Neto @ WCS)
A WCS Brasil recebeu, no dia 13 de janeiro, a visita das biólogas Neiva Guedes e Eliza Mense, respectivamente presidente e diretora-executiva do Instituto Arara Azul. Sediada em Campo Grande (MS), a organização atua desde 1990 para manter as populações de arara-azul (Anodorhynchus hyacinthinus) em vida livre no seu ambiente natural. Desde 2021, o instituto conta com apoio financeiro do Zoo Zurich para este trabalho, por meio de um acordo intermediado pela WCS Brasil.
Referência internacional na pesquisa e conservação de psitacídeos, grupo que inclui araras e papagaios, Neiva Guedes é um nomes mais importantes da história da proteção da arara-azul no Brasil. Seu trabalho científico e de campo foi decisivo para reverter o declínio populacional da espécie, que chegou a estar à beira da extinção, na década de 1990, principalmente em função do tráfico de animais silvestres. Hoje, estima-se que existam mais de 5 mil indivíduos vivendo em liberdade no Pantanal.
O impacto de sua trajetória extrapolou o meio científico. Neiva foi homenageada pelo cartunista Maurício de Souza (criador da Turma da Mônica), em um projeto de reconhecimento da atuação de mulheres na ciência, com uma versão própria para os quadrinhos, reconhecimento simbólico de uma atuação que mudou o destino de uma espécie inteira.
Apesar dos avanços, os desafios permanecem. “A população não só aumentou, como também começou a se expandir. Por isso, a arara-azul saiu da lista de espécies ameaçadas e passou para a categoria Vulnerável (VU), ou seja, houve uma melhora no status de conservação. Mas com esse avanço, as punições acabam sendo menores e alguns traficantes se sentem estimulados a retomar o tráfico”, alertou Neiva.
A destruição dos habitats naturais é outro fator de grande preocupação. Queimadas, desmatamento e o aumento das temperaturas afetam diretamente a sobrevivência dos filhotes e reduzem a disponibilidade das espécies vegetais que fornecem abrigo e alimento às araras-azuis. Além disso, em cenários de escassez, outras espécies passam a competir por recursos ou até a predar ovos e filhotes, ampliando os riscos para a população.
Durante a visita, Eliza Mense apresentou alguns resultados do trabalho do Instituto Arara Azul e destacou o fortalecimento das ações de monitoramento e manejo da espécie. Entre as estratégias adotadas estão a instalação de ninhos artificiais, iniciativas de restauração ambiental e projetos de geração de renda para comunidades locais, aliados a programas contínuos de educação ambiental, muitos deles com grande repercussão na mídia.
Eliza também apontou a perspectiva de expansão das ações para o sul da Amazônia, onde também são encontradas populações da arara-azul e enfrenta pressões crescentes sobre seus ecossistemas. Nesse contexto, a parceria com a WCS Brasil tende a se intensificar, unindo esforços na conservação da biodiversidade amazônica e no combate ao tráfico da vida silvestre, um desafio comum às duas organizações.
“Apesar de a arara-azul estar em uma classificação melhor, nosso monitoramento revela que ela continua sendo cobiçada em escala global. Há casos recentes de apreensão e repatriação envolvendo essa espécie, evidenciando o tráfico internacional como um fator preocupante para a conservação dessa ave”, destacou Antônio Carvalho, especialista em Combate ao Tráfico de Vida Silvestre na WCS Brasil.
Com exclusividade, Neiva Guedes concedeu a entrevista que segue ao jornalista Samuel Simões Neto, da WCS Brasil:

Neiva Guedes, durante entrevista (Foto: Antônio Carvalho @ WCS)
Qual é o status atual da conservação das araras-azuis no Brasil?
Neiva Guedes - Quando a gente faz um trabalho de conservação efetivo, conseguimos melhorar a sobrevivência da espécie e a reprodução. A população não só aumentou, como também começou a se expandir. Por isso, ela saiu da lista [de risco de extinção] e passou para Vulnerável (VU) — ou seja, “melhorou” de categoria. Porém, essa mudança de nível e esse aumento populacional também podem virar um incentivo para traficantes. Como as punições tendem a ser menores, traficantes que tinham diminuído bastante as taxas de tráfico acabam voltando. No ano passado, por exemplo, tivemos apreensão relacionada ao tráfico de araras novamente.
Por que a arara-azul é uma espécie tão estratégica para a conservação?
NG - Ela é extremamente importante. Apesar de existirem várias espécies na mesma família, ela é a maior representante do grupo, muito carismática e uma grande dispersora de sementes. Além disso, ela tem papéis ecológicos fundamentais: é espécie “guarda-chuva” e também “engenheira ambiental”, porque cria cavidades e estruturas usadas por outras espécies. Ao mesmo tempo, ela é muito sensível a mudanças ambientais, como desmatamento, queimadas e alterações climáticas — e a tendência é que esses impactos aumentem. Nos nossos estudos, a gente consegue mostrar, com dados científicos, o quanto isso afeta a vida dela.
Que outras frentes o instituto desenvolve?
NG - A gente sempre trabalhou com outras espécies também. A arara-azul continua sendo um foco, mas ao longo do tempo atuamos com várias outras, como arara-vermelha e tucanos, contribuindo para o conhecimento sobre a biodiversidade. Também temos projetos-piloto de recuperação de áreas que foram queimadas, com espécies nativas e de interesse para a espécie (como manduvi, acuri e bocaiuva). E como o ser humano é um elo importante nisso, a gente trabalha com as pessoas: ciência cidadã e ações para melhorar a qualidade de vida. Muitas pessoas que moram no Pantanal estão se mudando para a cidade e, sem renda e atividade profissional — principalmente as mulheres —, a gente vem capacitando por meio de artesanato, pintura, desenho e cerâmica, para que tenham alternativas de renda e possam melhorar a qualidade de vida.
E do ponto de vista de pesquisa, que iniciativas novas estão em andamento?
NG - Temos estudos que queremos publicar e, recentemente, estamos trabalhando em um paper que usa a espécie como base para uma inovação tecnológica. Caso um dia a espécie venha a desaparecer, estamos desenvolvendo, junto com o departamento de veterinária da UFMG, um estudo para criar novos indivíduos a partir de células-tronco. É um trabalho em desenvolvimento — e acabamos de publicar um artigo agora.
Qual é o principal desafio para manter esse trabalho no longo prazo?
NG - O nosso maior desafio hoje é a continuidade. A gente não quer interromper os projetos por falta de suporte financeiro. Por isso, ter parceiros é muito importante. Existe um trabalho contínuo e estruturado que vem acontecendo há anos e existem boas perspectivas para 2026, mantendo o foco na conservação da espécie e na ampliação do impacto.