Iniciativa atuará por três anos para fortalecer a governança territorial, a conservação de espécies aquáticas e o bem viver de povos indígenas e comunidades tradicionais.
A WCS Brasil reuniu parceiros institucionais, organizações da sociedade civil, representantes do poder público e da academia no dia 10 de junho, em Manaus (AM), para apresentar o projeto Conservação, Manejo e Governança Territorial no Interflúvio Purus-Madeira, iniciativa que será implementada entre 2026 e 2029 com foco na proteção da biodiversidade, no fortalecimento das comunidades tradicionais e na promoção da governança territorial integrada.
Financiado pela Fundação Nando e Elza Peretti, o projeto atuará em uma região considerada prioritária para a conservação da Amazônia, abrangendo áreas protegidas do interflúvio Purus-Madeira. O território enfrenta pressões crescentes relacionadas ao avanço do desmatamento, da grilagem de terras, do tráfico de fauna e da degradação ambiental, especialmente em áreas influenciadas pela BR-319.
Durante o encontro, a equipe da WCS Brasil apresentou a visão estratégica da iniciativa, que busca fortalecer a integridade ecológica da região por meio da construção coletiva de soluções que conciliem conservação da natureza, bem viver e participação social. “O sucesso das ações de conservação depende da colaboração entre instituições, comunidades, povos indígenas e demais atores que atuam no território. Este encontro foi um convite para construirmos juntos uma agenda integrada para o Baixo Purus”, destacou Márcia Lederman, gerente de conservação da WCS Brasil.
Três eixos estratégicos
O projeto está estruturado em três grandes eixos de atuação.
O primeiro visa apoiar o reconhecimento de um Mosaico de Áreas Protegidas no Baixo Purus, fortalecendo a gestão integrada do território. Entre as ações previstas estão diagnósticos territoriais, mapeamento de atores, oficinas participativas e apoio técnico para a submissão da proposta ao Ministério do Meio Ambiente.
O segundo eixo concentra esforços na conservação e no monitoramento de recursos e ambientes aquáticos. As atividades incluem a proteção participativa de quelônios, a implementação de protocolos do Programa Monitora na Reserva Biológica do Abufari, o fortalecimento do manejo comunitário do pirarucu e a ampliação do monitoramento ambiental baseado em ciência cidadã.
Já o terceiro eixo busca fortalecer as bases para o bem viver de povos indígenas e comunidades tradicionais, por meio de diagnósticos participativos, apoio ao acesso a serviços, fortalecimento organizacional e identificação de oportunidades para geração de renda sustentável.
Resultados esperados
Ao longo dos três anos de execução, a iniciativa pretende contribuir para o fortalecimento da governança territorial em uma área de aproximadamente 2,1 milhões de hectares, ampliando a proteção de espécies emblemáticas da região, como o pirarucu e a tartaruga-da-amazônia.
Também estão previstos os primeiros passos para a construção de Planos de Bem Viver junto às comunidades participantes, fortalecendo processos locais de planejamento e desenvolvimento alinhados às prioridades dos próprios territórios.
Construção coletiva
A reunião marcou o início de uma agenda de articulação que envolverá órgãos governamentais, instituições de pesquisa, organizações não governamentais, associações comunitárias e lideranças locais.
Entre os parceiros presentes ou envolvidos estão representantes da Secretaria de Estado do Meio Ambiente (SEMA-AM), Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI), Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Universidade Estadual do Amazonas (UEA), Instituto Federal do Amazonas (IFAM), Instituto Juruá, Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM), The Nature Conservancy (TNC), Casa do Rio, Sapopema, Instituto de Conservação e Desenvolvimento da Amazônia (IDESAM), Operação Amazônia Nativa (OPAN), organizações indígenas, associações de pescadores e outras instituições atuantes na região.
Para o INPA, a produção de conhecimento científico é fundamental para subsidiar estratégias de conservação e manejo sustentável dos recursos naturais da região. “O trabalho colaborativo permite que a ciência produza informações cada vez mais úteis para a conservação da biodiversidade e para as populações que dependem dela. No baixo Purus, ainda existem importantes lacunas de conhecimento, e gerar essas informações é fundamental para orientar estratégias de conservação e uso sustentável dos recursos naturais. Nossa expectativa é que essa integração entre pesquisa, gestão e comunidades resulte em benefícios concretos para o território e para as pessoas que vivem nele”, garantiu Vera da Silva, pesquisadora do INPA.
Já Eduardo von Mühlen, coordenador do Programa de Governança Territorial e Sociobioeconomia do Instituto Juruá, acredita que o caminho para a conservação da Amazônia é coletivo. “Espero que essa iniciativa entre organizações parceiras, com décadas de serviços prestados em prol da Amazônia, possa responder aos anseios das populações locais e o quanto antes incluir suas vozes, sua visão de mundo e suas necessidades para a gestão de seus territórios”, destacou Eduardo.
A coordenadora territorial do ICMBio em Manaus, Wilzer Lopes Gonçalves, reforçou a relevância da proposta de construção do Mosaico de Áreas Protegidas como instrumento de integração da gestão territorial e fortalecimento das estratégias de conservação. “Trabalhar de forma colaborativa é reconhecer que a conservação só se fortalece quando diferentes instituições e comunidades unem esforços em torno de objetivos comuns. A integração de conhecimentos técnicos, científicos, tradicionais e institucionais permite uma gestão territorial mais efetiva e alinhada às realidades locais. Esperamos que, nos próximos anos, iniciativas como o Mosaico de Áreas Protegidas contribuam para ampliar a proteção do Baixo Purus e garantir melhores condições para a conservação da biodiversidade e para a permanência dos modos de vida tradicionais”, falou Wilzer.
Nos próximos meses, a WCS Brasil dará início ao mapeamento de atores-chave, à estruturação das atividades de campo e à construção de um plano de comunicação e engajamento voltado ao fortalecimento das conexões entre os diversos atores que trabalham pela conservação do baixo rio Purus.
A proposta é simples e ambiciosa ao mesmo tempo: unir esforços para garantir a conservação da biodiversidade amazônica e melhorar a qualidade de vida das populações que dependem diretamente dos recursos naturais da região.