
Ana Luiza Melgaço, coordenadora do programa Povos e Territórios Indígenas da WCS Brasil, apresenta diferenças entre o Turismo de Base Comunitária (TBC) e o turismo convencional. Foto: Tayke Monteiro @WCS Brasil.
A WCS Brasil participou, na primeira quinzena de maio, de uma nova etapa do processo de construção do Plano de Visitação do Etnoturismo Yanomami, na região do rio Cauaburis e afluentes, na Terra Indígena Yanomami, em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas. A atividade foi realizada entre os dias 11 e 13 de maio, com oficinas na comunidade Maiá, dando continuidade às ações de sensibilização já realizadas anteriormente nas comunidades de Maturacá, Ariabu e Nazaré.
A iniciativa responde a uma demanda das associações indígenas locais e de instituições públicas para avançar na regularização da visitação que já ocorre em algumas comunidades da região. A proposta éconstruir, de forma participativa, um instrumento capaz de orientar a atividade turística no território, considerando a autonomia, as decisões coletivas, os modos de vida, os protocolos de consulta e as prioridades do povo Yanomami.
Segundo Ana Luiza Melgaço, coordenadora do Programa Povos e Territórios Indígenas da WCS Brasil, a demanda mais urgente neste momento é apoiar a elaboração do Plano de Visitação de Etnoturismo da Terra Indígena Yanomami, na região do rio Cauaburis e afluentes. “Existe uma forte demanda para que esse instrumento avance, de forma a regularizar a atividade e impulsionar alternativas de geração de renda para as famílias Yanomami”, explica.
Para Sandra Zanotto, especialista em cadeias de valor da Força-Tarefa Yanomami e Ye'kwana (FTYY), Sandra Zanotto, a oficina de sensibilização sobre o etnoturismo destacou a relevância das parcerias institucionais.
A atividade teve apoio técnico e logístico das equipes da FTYY (Funai/Fiocruz) e da Frente de Proteção Etnoambiental Yanomami e Ye'kuana - Funai, em articulação com WCS Brasil, ICMBio, FOIRN e ISA.
A especialista destacou a participação ativa da Associação Yanomami do Rio Cauaburis e Afluentes (AYRCA) e da Associação de Mulheres Yanomami Kumirayoma (AMYK). "A iniciativa atende a uma demanda genuína e recorrente das comunidades, expressa em assembleias e reuniões, e cuja articulação interinstitucional foi fundamental para a execução de ações que contribuem de forma significativa para a construção coletiva do Plano de Visitação voltado ao fortalecimento do etnoturismo", disse Sandra.

Participantes da oficina, realizada em maio de 2026. Foto: Raquel Santos.
Durante a atividade, a WCS Brasil contribuiu com apoio técnico ao planejamento participativo. Foram discutidos aspectos fundamentais para a estruturação do etnoturismo, como benefícios e riscos da visitação, construção de entendimento sobre etnoturismo, governança, infraestrutura disponível, referências culturais, atrativos locais, desafios logísticos, interesse em receber visitantes e possibilidades de gestão da atividade no território. A proposta é que o Plano de Visitação seja construído a partir da realidade das comunidades, respeitando o tempo, as decisões e o protagonismo Yanomami.
Continuidade do processo
Em novembro de 2024, oficinas de sensibilização realizadas nas comunidades de Maturacá e Nazaré já haviam reunido lideranças, associações e instituições parceiras para discutir conceitos de turismo, diferenças entre turismo convencional, ecoturismo e turismo de base comunitária, além de mapear desafios, potencialidades e experiências de visitação já ocorridas no território. Na ocasião, também foram levantadas informações sobre atrativos naturais e culturais, histórico de visitação irregular e necessidades para o planejamento da atividade.
Entre os principais pontos identificados nas etapas anteriores estão a necessidade de definir, junto às comunidades, quais práticas, saberes e experiências culturais podem ou não ser compartilhadas com visitantes, bem como garantir acompanhamento técnico qualificado ao longo do processo, considerando as especificidades de um povo de recente contato. Também foram apontadas necessidades relacionadas ao fortalecimento da governança local para a gestão da atividade, à melhoria da infraestrutura e da comunicação, à formação e construção de protocolos de conduta, segurança e monitoramento da visitação.

Terra Indígena Yanomami, em São Gabriel da Cachoeira. Foto: Raquel Santos.
A elaboração do Plano de Visitação é uma etapa essencial para ordenar a atividade, evitar práticas irregulares e garantir que qualquer iniciativa turística ocorra de forma planejada, segura e respeitosa.
As próximas etapas focam na construção coletiva dos roteiros turísticos e do Plano de Negócios, incluindo discussões sobre logística, infraestrutura, perfil de visitantes, gestão comunitária, repartição de benefícios e responsabilidades de cada ator envolvido. O planejamento também prevê a realização de uma visita experimental, para testar os roteiros e ajustar, junto às comunidades, protocolos de segurança, manuais de conduta, boas práticas e estratégias de monitoramento.
Essas ações contribuirão para fortalecer a governança local e apoiar a tomada de decisões informadas sobre o desenvolvimento do etnoturismo , além de gerar benefícios às famílias Yanomami, por meio da valorização de seus conhecimentos e modos de vida e proteção do território.