Atividades realizadas em maio fortaleceram ações de conservação na TI Betânia, na bacia do rio Içá, e na TI Vale do Javari, onde o povo Marubo protege cerca de 45 praias de nidificação no rio Ituí

A WCS Brasil realizou, em maio, duas formações sobre manejo e conservação de quelônios em Terras Indígenas do Amazonas. As atividades tiveram como objetivo fortalecer iniciativas de proteção de espécies como a tartaruga-da-amazônia (Podocnemis expansa) o tracajá (Podocnemis unifilis), e a iaçá (Podocnemis sextuberculata) conhecidos em muitos locais amazônicos como “bichos-de-casco”.
A primeira foi realizada nos dias 7 e 8 de maio, na Terra Indígena Betânia, na bacia do rio Içá, com a participação de 48 pessoas dos povos Tikuna e Kokama. A segunda, aconteceu entre os dias 14 e 16 de maio, na aldeia São Joaquim, do povo Marubo, localizada às margens do rio Ituí, na Terra Indígena Vale do Javari, no extremo oeste do Amazonas e contou com a presença de aproximadamente 40 pessoas em uma ação coordenada interinstitucionalmente.
O conteúdo foi focado no manejo participativo dos quelônios, tratando sobre identificação e proteção de áreas de nidificação, monitoramento de praias, proteção de ninhos e filhotes, além da importância da organização social para garantir a continuidade das ações de conservação nestes territórios.
Para Ana Luiza Melgaço, coordenadora do programa Povos e Territórios Indígenas da WCS Brasil, essas formações contribuem para que os próprios indígenas, através do diálogo entre ciências, ampliem seus conhecimentos técnicos e consolidem processos de pesquisa e monitoramento conduzidos por eles mesmos.
"Além dos quelônios serem fundamentais para o equilíbrio dos ecossistemas amazônicos, são também de grande importância para a soberania alimentar e para a cultura dos povos indígenas. Apoiar e fomentar as iniciativas próprias de manejo de quelônios fortalece a autonomia das comunidades na conservação da biodiversidade e no cuidado com seus modos de vida", afirma.
No Içá, a oficina está diretamente relacionada ao Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs) das Terras Indígenas Betânia e Matintin, que apontaram a redução dos quelônios como uma preocupação das comunidades.
“Durante os levantamentos realizados pelos pesquisadores indígenas, as comunidades foram questionadas sobre o que antes existia em abundância e hoje está mais escasso. Os bichos de casco foram muito citados, e a partir dessa escuta que surgiu o interesse em realizar as oficinas de manejo”, explica Édila Carvalho, assistente técnica da WCS Brasil.
"Nós pensamos em uma preservação do lago por causa dos nossos tracajás e iaçás, que estão acabando. Os nossos anciões e caciques preservaram o lago, agora nós estamos aprendendo como cuidar, criar nossas tracajás, para que futuramente nossas crianças possam ver e criá-los também", ressalta Augustinho Araújo, liderança indígena que participou da atividade.
Apoio ao Vale do Javari

Desde 2013, os Marubo protegem cerca de 45 praias de nidificação de quelônios ao longo do rio Ituí, o que corresponde a aproximadamente 70 quilômetros de rio protegido. Nessas áreas, o trabalho envolve a proteção o monitoramento dos ninhos até o nascimento dos filhotes, contribuindo para a recuperação e manutenção das populações de bicho de casco nesta região.
O Vale do Javari é uma das regiões de maior importância socioambiental da Amazônia e reconhecida mundialmente por abrigar a maior concentração de povos indígenas isolados do planeta. Nesse contexto, o fortalecimento dos Agentes Ambientais Indígenas e das lideranças locais tem papel estratégico para a proteção dos territórios, dos modos de vida e da biodiversidade.
As ações de manejo de quelônios no rio Ituí têm uma trajetória construída ao longo dos anos pelo povo Marubo, com apoio de organizações parceiras, principalmente o Centro de Trabalho Indigenista (CTI). Em 2019, a iniciativa foi fortalecida com a realização de uma primeira capacitação específica sobre manejo dos “bichos-de-casco” e com a construção de um acordo local entre 18 aldeias Marubo.
Em 2024, foram monitorados 630 ninhos no rio Ituí, sendo 95 de tartaruga-da-amazônia e 535 de tracajá. Como resultado, cerca de 11.400 filhotes de tartaruga-da-amazônia e 16 mil filhotes de tracajá nasceram.
Esse acordo foi renovado em fevereiro de 2025, reafirmando o compromisso coletivo das comunidades locais com a conservação da vida nas praias. A iniciativa conta também com o apoio da Funai, que fornece suporte aos agentes monitores e ajuda com combustível para as atividades de campo.
"O manejo de quelônios é uma estratégia fundamental para a conservação dessas espécies na Amazônia. Poder contribuir com iniciativas como a que o CTI vem desenvolvendo junto com os indígenas no Vale do Javari, para nós da WCS é uma grande satisfação", celebra Camila Ferrara, coordenadora do Programa de Conservação de Quelônios da WCS Brasil.