
Delegação do povo Ticuna durante marcha realizada no ATL 2026 (Foto: Val Tikuna)
O encerramento do Acampamento Terra Livre (ATL) 2026 reafirmou a centralidade dos territórios indígenas no debate sobre democracia, direitos, proteção socioambiental e enfrentamento da crise climática. Ao longo da 22ª edição da maior mobilização indígena do país, milhares de lideranças de diferentes regiões do Brasil ocuparam Brasília para denunciar retrocessos, defender a demarcação dos territórios e fortalecer estratégias de incidência política diante das ameaças que seguem pressionando os povos indígenas e seus modos de vida.
Mais do que um espaço de mobilização, o ATL voltou a se afirmar como um território de articulação, formação política e construção coletiva de posicionamentos.
Ao final do encontro, a defesa de territórios livres de exploração, a denúncia da instrumentalização política dos direitos indígenas e a afirmação de que não há solução para a crise climática sem os povos indígenas estiveram entre as mensagens mais contundentes do evento.
>> Leia a Carta final do 22o. ATL
Para Ana Luiza Melgaço, coordenadora do Programa Povos e Territórios Indígenas da WCS Brasil, o ATL segue cumprindo um papel fundamental no fortalecimento do movimento indígena. “Fica muito claro que esse é um espaço de muita força e articulação do movimento indígena no Brasil e que não é só um evento. É onde as principais pautas do movimento indígena ganham corpo, onde as lideranças se encontram, trocam, se fortalecem e saem mais preparadas para os desafios que enfrentam nos seus territórios”, afirma.
Segundo Ana Luiza, esta edição também chamou atenção pela dimensão da mobilização e pelo amadurecimento das estratégias políticas do movimento indígena, tanto na pressão direta sobre os poderes da República quanto na ampliação da ocupação de espaços institucionais. “Não é só resistir, mas também disputar os rumos da política”, resumiu.
Nesse contexto mais amplo, a participação de lideranças indígenas da região do rio Içá, no Alto Solimões, integrou esse movimento de articulação nacional a partir de experiências concretas vividas nos territórios.
Ao longo do ATL, a comitiva acompanhou plenárias – com participação de representantes políticas da causa indígena, como Célia Xakriabá e Sônia Guajajara –, rodas de conversa, agendas paralelas – com o lançamento de uma cartilha bilíngue Português-Ticuna, da Defensoria Pública da União – e espaços de diálogo institucional, conectando suas pautas locais a um debate mais amplo sobre demarcação, proteção territorial, fortalecimento organizacional e defesa de direitos.
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A presença dessas lideranças no evento reforçou como os desafios vividos no Içá dialogam diretamente com os debates nacionais do movimento indígena. A pressão sobre os territórios, a necessidade de reconhecimento fundiário, a proteção dos recursos naturais, o fortalecimento das organizações de base e a valorização dos modos de vida indígenas estiveram entre os temas que atravessaram tanto a participação da comitiva quanto as discussões gerais do ATL.
Para Elis Oliseo, presidente do Instituto Ngutapa, o reconhecimento e a proteção do território seguem entre as prioridades mais urgentes para os povos da região. “Nós queremos preservar a nossa terra, os nossos peixes e o manejo do peixe dentro desse território. (...) Nós não queremos que isso acabe, porque a nossa cultura depende da preservação dessa floresta”, destacou. Para ele, a demarcação no alto rio Içá é fundamental diante da presença de invasores, madeireiros, garimpeiros e outras pressões que ameaçam o território.
A participação no ATL também ampliou oportunidades de articulação institucional. Na sexta-feira, último dia do evento, a delegação do Içá participou de uma reunião na sede da Funai, em Brasília, onde apresentou demandas e atualizou o andamento de ações relacionadas às reivindicações territoriais da região. O encontro também permitiu avançar em perspectivas de cooperação voltadas à gestão ambiental e territorial e ao fortalecimento de atividades produtivas locais.
De acordo com Mislene Mendes, diretora de Administração e Gestão da Funai, a reunião foi importante para dar continuidade a encaminhamentos já em curso e projetar novos passos. “Tivemos a grata satisfação de saber mais sobre o andamento do nosso acordo de cooperação técnica com a WCS, voltado para os estudos fundiários das reivindicações territoriais existentes naquela região”, afirmou. Segundo ela, também houve avanço na proposta de construção de um novo acordo com foco em gestão ambiental e territorial e no fortalecimento das atividades produtivas.
Outro aspecto relevante da participação da delegação do Içá no ATL foi a visibilidade dada à cultura Ticuna, apresentada no evento por meio do canto e do artesanato exposto na Feira do ATL. Em um contexto marcado pela defesa dos direitos e dos territórios, essas expressões também reafirmam a relação entre floresta, memória, identidade e continuidade dos modos de vida indígenas.
"É a primeira vez que eu venho no ATL e eu vim pra fortalecer a nossa região, pra cantar e mostrar nosso artesanato, que não tem em outras regiões. O tururi, que é nossa roupa, essas bolsas de tucum. Nossa cultura precisa ser valorizada", destacou Gelinda Rosindo, agricultora e artesã da comunidade Vila Betânia, que integrou a delegação do Içá.
O ATL 2026 deixa como marca não apenas a força da mobilização indígena em nível nacional, mas também a capacidade de conectar agendas locais a estratégias mais amplas de incidência, organização e fortalecimento político.
Para as lideranças do Içá, a participação no encontro significou estar presente em um espaço de escuta, troca, aprendizado e construção de alianças, retornando ao território com novas conexões, maior acúmulo político e ainda mais clareza sobre os caminhos coletivos a seguir.
"Quem está dentro disso, quem vive isso, volta diferente, com certeza: mais firme, mais articulado e com mais clareza do caminho a seguir na defesa dos seus direitos e territórios", garantiu Ana Luiza Melgaço.