
Evento de lançamento foi realizado no Auditório da Ciência, no Inpa (Foto: Samuel Simões @WCS)
Com informações do Inpa.
Na última sexta-feira, dia 27 de fevereiro, cientistas e especialistas indígenas apresentaram o Relatório do Inventário Rápido Biológico e Social do Alto Rio Içá #33 (RI#33), que reúne inventários biológicos e pesquisa social produzidos a partir da expedição científica realizada em maio de 2025. Também foi compartilhado conhecimento indígena pelas comunidades que moram na região da pesquisa.
O evento ocorreu no Auditório da Ciência, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI), em Manaus, reunindo pesquisadores, representantes de instituições parceiras, lideranças indígenas e sociedade civil.
A região remota, com paisagens ainda pouco documentadas da Amazônia Ocidental, agora conta com um conjunto robusto de materiais que apresentam a caracterização da área estudada, informações sobre geologia, flora e vegetação e a catalogação de quatro grupos de animais (peixes, anfíbios e répteis, aves e mamíferos).
O relatório também traz um panorama social do Alto Rio Içá, abordando a história socioambiental, registros de etnoconhecimento, gestão territorial, governança e conflitos socioambientais.
Além da publicação impressa, a diversidade biológica e a profundidade histórica e cultural do território foram registradas no vídeo “Ciência Intercultural para a Conservação no Alto Rio Içá”, exibido durante o evento.
O Rio Içá compreende uma área de 350,8 mil hectares de florestas públicas não destinadas ao longo do rio Içá, onde vivem diversas comunidades indígenas, como os povos Kokama, Tikuna e Kambeba.
O Inventário Rápido foi conduzido como um trabalho de ciência intercultural, com colaboração entre cientistas e participação ativa dos povos indígenas. O objetivo foi evidenciar a importância da região para a conservação da biodiversidade amazônica e apoiar a proteção territorial formal da área, que enfrenta ameaças como garimpo, extração ilegal de madeira e tráfico de animais.
Antes do lançamento em Manaus, os materiais foram apresentados para as seis comunidades indígenas que participaram da pesquisa colaborativa — Mamuriá I, Mamuriá II, Nova Esperança, Nova Floresta Urutaí, São José e Três Corações de Jesus. E também para outras comunidades da região do Içá, em um encontro realizado na TI Betânia. Os encontros envolveram moradores, gestores e representantes de instituições locais, em um processo de devolutiva e diálogo sobre os resultados.
“Em Manaus tivemos um importante momento para compartilhar os principais resultados obtidos durante o inventário em campo e também as análises subsequentes das coletas de dados biológicos e sociais, realizadas nos acervos do Programa de Coleções Científicas Biológicas, no Laboratório Temático de Biologia Molecular do Inpa e em laboratórios parceiros na Ufam e no Instituto Mamirauá”, destacou a coordenadora brasileira do Inventário, a pesquisadora do Inpa Fernanda Werneck.
Segundo o coordenador do Inventário e diretor do Programa Andes-Amazonas no Field Museum, o antropólogo sociocultural Jeremy Campbell, o engajamento com as comunidades teve início em 2021 e buscou ouvir suas demandas. “Os Kokamas, Tikunas e demais povos são guardiões das florestas e dos rios. Valorizar esse conhecimento milenar e fortalecer o protagonismo das comunidades no manejo dos recursos naturais é fundamental”, ressaltou.
Para a coordenadora do Programa Povos e Territórios Indígenas da WCS Brasil, Ana Luiza Melgaço, o Relatório é fruto de construção conjunta, escuta e presença no Alto Rio Içá. Segundo ela, as informações geradas fortalecem os direitos dos povos, qualificam os diálogos, orientam decisões e reforçam a defesa do território. “O Relatório é resultado da confiança construída com as comunidades e do compromisso com uma conservação que respeita e aprende com a ciência indígena. Participar deste grande mutirão entre ciências foi de imensa satisfação”, afirmou.

Nos dias que atecederam o evento em Manaus, equipe do projeto apresentou o Relatório RI#33 nas comunidades locais. Na foto acima, evento na Maloca Magüta, Vila Betânia, Santo Antônio do Içá. (Foto: Divulgação)