
Ao longo de mais de quatro décadas dedicadas à ilustração botânica, Dulce Nascimento transformou a observação da natureza em uma ponte entre ciência, arte e conservação. Suas aquarelas, produzidas com rigor científico e sensibilidade artística, registram a extraordinária diversidade da flora brasileira e ajudam a comunicar, de forma acessível, conhecimentos fundamentais para a pesquisa, a educação ambiental e a valorização da biodiversidade.
Essa trajetória é celebrada na exposição "Amazônia Revelada – 50 Expedições de Ilustração Botânica", que reúne obras produzidas ao longo de cinquenta expedições realizadas na Amazônia desde 1998. Mais do que retratos de plantas, as ilustrações revelam histórias, paisagens e o olhar atento de quem fez da contemplação da natureza uma forma de conhecimento e de preservação.
Nesta entrevista, concedida à jornalista Ana Cíntia Guazzelli, especialista de Comunicação da WCS Brasil, Dulce reflete sobre as transformações que testemunhou na Amazônia ao longo das últimas décadas, o papel da ilustração científica em um mundo marcado pelas novas tecnologias, a formação de novas gerações de ilustradores e a importância da arte como instrumento de sensibilização para a conservação da biodiversidade.
Confira abaixo a entrevista na íntegra.
WCS Brasil - Esta exposição celebra sua 50ª viagem de ilustração botânica na Amazônia. Quando você olha para a primeira expedição, em 1998, e para a Amazônia que encontra hoje, quais transformações mais a impactam — tanto na paisagem quanto na relação das pessoas com a floresta?
Dulce Nascimento - Ao olhar para minha primeira expedição, em 1998, e compará-la com a Amazônia que encontro hoje, percebo transformações profundas, algumas inspiradoras, outras bastante preocupantes.
A floresta continua extraordinária em sua diversidade e capacidade de surpreender, mas também carrega marcas cada vez mais visíveis da ação humana. Em muitas regiões, os impactos do desmatamento, das queimadas e das mudanças climáticas alteraram a paisagem e trouxeram um sentimento de urgência que, há quase três décadas, não se manifestava com tanta intensidade.
Ao mesmo tempo, também observo uma crescente valorização da floresta por parte de pesquisadores, comunidades locais, povos indígenas e de uma parcela cada vez maior da sociedade. Hoje existe uma consciência mais ampla de que a Amazônia não é apenas um patrimônio brasileiro, mas um patrimônio da humanidade, essencial para o equilíbrio climático e para a conservação da biodiversidade.
Esses anos de convivência com a floresta reforçaram em mim a certeza de que cada expedição é, antes de tudo, um exercício de escuta e respeito. A Amazônia ensina que tudo está conectado e que nossa responsabilidade vai muito além de documentar sua extraordinária riqueza. Como ilustradora botânica, sinto que meu trabalho também é uma forma de preservar a memória das espécies, valorizar esse patrimônio natural e contribuir para que mais pessoas reconheçam a importância de proteger aquilo que ainda temos. Cada viagem renova meu compromisso com a ciência, com a arte e com a conservação da floresta.
WCS Brasil - Em uma época dominada por fotografias de alta resolução e inteligência artificial, qual continua sendo o papel insubstituível da ilustração botânica para a ciência e para a conservação da biodiversidade?
DN - Embora a fotografia de alta resolução e a inteligência artificial tenham ampliado enormemente nossa capacidade de registrar e processar imagens, a ilustração botânica continua desempenhando um papel único e insubstituível. Ela não compete com essas tecnologias; ela as complementa.
A fotografia registra um instante. A ilustração botânica interpreta e sintetiza o conhecimento sobre uma espécie. O ilustrador observa cuidadosamente diversos exemplares, identifica suas características mais representativas e reúne, em uma única imagem, detalhes que dificilmente apareceriam simultaneamente em uma fotografia. Esse rigor torna a ilustração uma ferramenta científica de grande precisão para estudos taxonômicos, identificação de espécies e documentação da biodiversidade.
Além do seu valor científico, a ilustração botânica estabelece uma relação mais profunda entre o observador e a planta. O tempo dedicado à observação revela formas, estruturas e sutilezas que estimulam um olhar mais atento e sensível para a natureza. Em um contexto de perda acelerada da biodiversidade, esse olhar é essencial para fortalecer o reconhecimento da importância das espécies e despertar o compromisso com sua conservação.
A tecnologia continuará evoluindo, mas a capacidade humana de observar com profundidade, interpretar a natureza e traduzir esse conhecimento em imagens que unem ciência, arte e sensibilidade permanece sendo a grande contribuição da ilustração botânica. É justamente essa combinação que faz dela uma linguagem atemporal e indispensável para a ciência e para a conservação da biodiversidade.
WCS Brasil - Você costuma afirmar que a ilustração botânica exige rigor científico e sensibilidade artística. Como equilibrar essas duas dimensões sem que uma comprometa a outra?
DN - Para mim, rigor científico e sensibilidade artística não são forças opostas, mas complementares. O rigor científico garante a fidelidade à espécie, à sua morfologia e aos detalhes que permitem sua correta identificação. Já a sensibilidade artística é o que dá vida à ilustração, conduzindo o olhar do observador e revelando a beleza, a harmonia e a singularidade de cada planta.
O equilíbrio entre essas duas dimensões nasce, antes de tudo, da observação. É preciso observar com precisão, mas também com encantamento. A ciência orienta minha mão; a arte orienta meu olhar. Uma exige conhecimento, método e disciplina. A outra pede sensibilidade, paciência e a capacidade de perceber aquilo que muitas vezes não está evidente à primeira vista.
Acredito que uma boa ilustração botânica é aquela em que a arte está a serviço da ciência, sem jamais abrir mão da emoção que desperta. O objetivo não é embelezar a natureza, porque ela já é extraordinariamente bela, mas representá-la com verdade, clareza e respeito.
É justamente nesse encontro entre conhecimento e sensibilidade que a ilustração botânica encontra sua maior força: comunicar ciência de forma precisa, ao mesmo tempo em que desperta nas pessoas admiração, curiosidade e um profundo compromisso com a conservação da biodiversidade.
WCS Brasil - Ao longo de décadas documentando espécies brasileiras, houve alguma planta ou encontro na floresta que tenha mudado sua forma de compreender a natureza ou mesmo seu papel como ilustradora?
DN - É difícil destacar apenas um encontro, porque a floresta tem o poder de nos transformar continuamente. Ao longo de mais de quatro décadas como ilustradora botânica e de muitos anos conduzindo expedições na Amazônia, compreendi que cada espécie, por mais discreta que seja, carrega uma história evolutiva extraordinária e desempenha um papel essencial no equilíbrio da vida.
Talvez a maior mudança não tenha sido provocada por uma planta específica, mas pela própria convivência com a floresta. A Amazônia ensina humildade. Ela nos mostra que sempre haverá mais para aprender, mais detalhes para observar e mais conexões para compreender. Quanto mais desenhava, mais percebia que a ilustração não era apenas uma forma de representar a natureza, mas também um exercício de escuta, de paciência e de respeito.
Essa vivência transformou profundamente meu papel como ilustradora. Passei a entender que cada desenho é mais do que um registro científico: é uma maneira de preservar a memória de espécies, comunicar conhecimento e despertar nas pessoas o mesmo encantamento que sinto diante da extraordinária diversidade da flora brasileira.
A floresta continua sendo minha maior mestra. É ela que, a cada expedição, renova minha curiosidade, fortalece meu compromisso com a conservação e me lembra que conhecer a natureza é, acima de tudo, um ato de respeito e gratidão.
WCS Brasil - Suas expedições formaram centenas de alunos de diferentes países e níveis de experiência. Qual é a principal transformação que você observa nas pessoas após dias de observação silenciosa e desenho em meio à Amazônia?
DN - A transformação mais bonita que observo não acontece apenas no desenho, mas no olhar. Depois de alguns dias na Amazônia, desenhando e convivendo com a floresta, as pessoas passam a enxergar o que antes lhes era invisível. Elas desaceleram, desenvolvem a capacidade de observar com atenção e descobrem que a natureza revela sua beleza aos poucos, para quem está disposto a dedicar tempo e silêncio.
A ilustração botânica exige paciência, presença e respeito. Durante esse processo, muitos alunos percebem que desenhar uma planta não é apenas reproduzir suas formas, mas compreender sua estrutura, sua história e seu papel no ecossistema. Essa experiência transforma a maneira como se relacionam com a natureza.
Independentemente da idade, da nacionalidade ou da experiência artística, vejo que todos retornam diferentes. Levam consigo um olhar mais sensível, mais curioso e mais consciente sobre a importância da biodiversidade. E acredito que essa seja a maior aprendizagem: entender que somos parte da natureza e que cuidar dela começa, antes de tudo, pela capacidade de observá-la com atenção, encantamento e respeito.
WCS Brasil - Seu trabalho ajudou a levar a flora brasileira a espaços de grande visibilidade internacional, incluindo obras presentes em palácios reais e instituições estrangeiras. Na sua visão, o Brasil reconhece hoje a importância estratégica da ilustração científica para valorizar seu patrimônio natural?
DN - Embora existam iniciativas de grande relevância, a ilustração científica nem sempre recebe o reconhecimento estratégico que merece como instrumento de pesquisa, documentação, educação e conservação da biodiversidade.
Um país que abriga uma das maiores diversidades biológicas do planeta deveria investir cada vez mais na valorização dessa área, fortalecendo a formação de novos ilustradores, ampliando o apoio às instituições de pesquisa e promovendo o diálogo entre ciência, arte e sociedade. A ilustração científica traduz conhecimentos complexos em imagens precisas e acessíveis, aproximando o público da riqueza natural brasileira e contribuindo para sua preservação.
Acredito que valorizar a ilustração científica é também valorizar a nossa identidade, a nossa biodiversidade e a memória do patrimônio natural que temos a responsabilidade de conhecer, proteger e transmitir às futuras gerações.
WCS Brasil - Em um cenário de perda acelerada de biodiversidade, você acredita que a ilustração botânica pode atuar também como uma ferramenta de sensibilização ambiental e mobilização social? De que forma?
DN - Acredito que sim: em um momento de perda alarmante da biodiversidade, a ilustração botânica deixa de ser registro científico ou expressão artística e se torna uma poderosa ferramenta de sensibilização ambiental.
Cada ilustração é, de certa forma, um testemunho da riqueza da nossa flora e um convite à reflexão sobre a urgência de sua conservação. Se meu trabalho conseguir despertar em alguém um novo olhar para a natureza e a vontade de cuidar dela, acredito que a arte já estará cumprindo uma das suas mais nobres missões: transformar conhecimento em consciência e consciência em ação.
Em um momento em que a biodiversidade desaparece em um ritmo alarmante, a ilustração botânica deixa de ser apenas um registro científico ou uma expressão artística para se tornar também uma poderosa ferramenta de sensibilização ambiental.
Quando uma pessoa observa uma ilustração botânica, ela é convidada a enxergar detalhes que, muitas vezes, passariam despercebidos na natureza: a delicadeza das nervuras de uma folha, a arquitetura de uma flor, a textura de um tronco e o infinito de tons de verde presentes na vegetação.
Esse processo de contemplação desperta curiosidade, aproxima o público da ciência e fortalece o vínculo afetivo com a biodiversidade. E sabemos que as pessoas tendem a proteger aquilo que conhecem e valorizam.
Por isso, acredito que a ilustração botânica tem um papel importante na mobilização social. Ela comunica de forma acessível, emociona sem abrir mão do rigor científico e ajuda a construir uma cultura de respeito pela natureza. Em tempos de tantos desafios ambientais, essa capacidade de sensibilizar talvez seja uma das maiores contribuições que a arte possa oferecer à conservação.
WCS Brasil - Depois de quase 30 anos conduzindo expedições e mais de 40 anos dedicados à ilustração botânica, o que ainda desperta seu encantamento quando você se senta diante de uma planta para desenhá-la?
DN - O encantamento continua sendo exatamente o mesmo que me levou a escolher esse caminho: a infinita capacidade que cada planta tem de revelar algo novo. Por mais de quarenta anos que eu desenhe e por mais de cinquenta expedições que tenha realizado na Amazônia, nunca me sentei diante de uma espécie pensando que já sabia tudo sobre ela.
Cada planta possui uma identidade própria, uma arquitetura única, um ritmo de crescimento, uma combinação de formas, cores e texturas que convida à observação cuidadosa. É nesse tempo de contemplação que surgem descobertas. Quanto mais observo, mais percebo a extraordinária inteligência e beleza presentes na natureza.
A ilustração botânica me ensinou que desenhar é, antes de tudo, um exercício de humildade. A planta conduz o olhar, dita o tempo e revela seus detalhes pouco a pouco. Meu papel é escutá-la com atenção e traduzir, com rigor científico e sensibilidade artística, aquilo que ela tem a contar.
Talvez seja justamente essa possibilidade permanente de aprender e de me surpreender que mantenha vivo o meu encantamento. Enquanto existir uma planta para observar, haverá também uma nova história para descobrir, registrar e compartilhar. E acredito que esse olhar atento e respeitoso seja uma das formas mais profundas de celebrar e preservar a extraordinária diversidade da vida.