Por Francivane Fernandes, da WCS Brasil
No dia 24 de janeiro de 2026, estive na aldeia Vila Betânia Mecürane, na Terra Indígena Betânia, em Santo Antônio do Içá (AM), para acompanhar dois momentos importantes no território: a inauguração do Museu Indígena Tchirugüne e uma reunião com lideranças indígenas do Alto Rio Içá para dialogar sobre organização comunitária e defesa territorial.

Lideranças indígenas do Alto Rio Içá. (Foto: Francivane Fernandes @WCS)
A inauguração do museu foi um marco para o povo Tikuna. A iniciativa, articulada pelo Instituto Ngutapa com apoio de parceiros como a WCS Brasil, materializa um sonho coletivo. O nome Tchirugüne significa “pouso das andorinhas”, como explicou Sinésio Trovão, presidente do Instituto — uma imagem simbólica para um espaço que nasce como abrigo da memória e dos saberes.

Dança tradicional Taimataima. (Foto: Francivane Fernandes @WCS)
A cerimônia reuniu cerca de 530 pessoas e foi marcada por danças, cantos ancestrais, jogos tradicionais e partilha de comidas e bebidas típicas. Mais do que uma celebração, foi um gesto de reafirmação cultural. O museu se consolida como um centro vivo de transmissão de conhecimentos, identidade e tradições, concebido e liderado pelo próprio povo Tikuna.
Estar ali representando a WCS Brasil foi uma experiência potente. No território, fica evidente como cultura e conservação caminham juntas. Quando a história e os saberes de um povo são valorizados e visibilizados, fortalecem-se também a conexão com a terra, a autonomia e a defesa do território ancestral.

Bebida tradicional Pajuaru (macaxeira fermentada). (Foto: Francivane Fernandes @WCS)
No mesmo contexto da visita, me reuni com lideranças indígenas Kokama, Tikuna e Kambeba do Alto Rio Içá, em uma conversa pautada pela escuta ativa e pelo diálogo franco. Falamos sobre desafios e estratégias para fortalecer a organização comunitária na região.
A parceria da WCS com as comunidades do Alto Içá já está em curso. Temos apoiado a defesa do território, buscando garantir segurança fundiária e articulando a cooperação com a Funai para viabilizar os estudos de identificação e delimitação — etapa que está em andamento. Também está previsto o apoio à proteção territorial por meio de monitoramento e vigilância, além de ações voltadas ao ordenamento da pesca na região, envolvendo indígenas e não indígenas.

Fortalecendo a parceria entre a WCS e as lideranças Tikunas, Sinésio Trovão Tikuna l, Diretor do Museu Tchirugüne e Elis Olisio Tikuna, diretor-presidente do Instituto Ngutapa. (Foto: Francivane Fernandes @WCS)
No campo da organização social, o fortalecimento passa por processos de formação e articulação. Representantes indígenas têm participado de cursos sobre direitos indígenas e PNGATI, além de espaços estratégicos como a COP da Biodiversidade e o ATL, ampliando sua inserção no movimento indígena e nos debates nacionais. O próximo passo nesse processo é apoiar a formalização de uma organização própria que represente os povos do Alto Rio Içá.
Sair de Betânia depois desse encontro deixou uma certeza: quando os povos indígenas lideram seus processos — culturais, políticos e territoriais — o território se fortalece como um todo. E nosso papel é seguir apoiando, com respeito e compromisso, cada passo dessa caminhada.

Participantes da reunião com as lideranças indígenas do alto Rio Içá, sobre a criação de uma Associação Comunitária do Alto Rio Içá. (Foto: Arquivo Francivane Fernandes)