Comunitários revisitam propostas de roteiros turísticos e consolidam propostas viáveis para a comunidade. Foto: Casa do Rio.
Entre os dias 16 de junho e 4 de julho, comunidades do Mosaico do Baixo Rio Madeira participaram de oficinas de devolutiva e validação de propostas de Turismo de Base Comunitária (TBC). Os encontros deram continuidade a um processo de construção participativa que identificou, em outubro de 2025, atrativos, possibilidades de visitação e formas de organização do turismo nos territórios.
Entre 16 e 19 de junho, as atividades reuniram representantes da Aldeia do Marinheiro, Aldeia Lago do Piranha, Comunidade Lago do Tracajá e Comunidade Santo Antônio do Mamori. Já em 4 de julho, a oficina foi realizada na RDS Igapó-Açu, com participação das comunidades São Sebastião do Igapó-Açu e Nova Geração.
O objetivo foi apresentar às comunidades as propostas elaboradas a partir dos levantamentos e discussões realizados em outubro do ano passado, verificar se elas correspondiam às características e expectativas de cada território e fazer, junto aos moradores, ajustes necessários antes da consolidação dos roteiros. As oficinas também permitiram discutir formas de organização comunitária para o turismo e as condições necessárias para colocar as experiências em prática.
Atividade realizada na comunidade Santo Antônio do Mamori. Foto: Casa do Rio.
Segundo Rodrigo Osório, responsável pelo trabalho de capacitação, uma das principais conclusões do processo é que não existe uma única vocação turística para todos os territórios. “O que a gente identificou ao longo desse trabalho é um potencial diverso para o turismo de base comunitária. Não tem uma única vocação. Pensamos em várias possibilidades, algumas localizadas para cada comunidade, outras integradas, e também em roteiros que podem ser viabilizados no curto, no médio e no longo prazo”, explica.
Na RDS Igapó-Açu, a combinação de rios, florestas alagadas, fauna e paisagens permite estruturar desde passeios mais curtos e experiências de um dia até atividades mais imersivas, como expedições fluviais e pernoites na floresta. Parte dessas possibilidades pode atender viajantes que já circulam pela região da BR-319, enquanto outras podem alcançar um público interessado especificamente em ecoturismo.
Nas aldeias do povo Mura, no Lago do Piranha e no Marinheiro, foram identificadas oportunidades para experiências que aproximem natureza e cultura, valorizando o protagonismo indígena na apresentação do território. No Lago do Tracajá, uma das possibilidades discutidas foi a realização de vivências comunitárias articuladas com os hotéis existentes na região.
“Em Santo Antônio do Mamori chama atenção o potencial ligado à conservação e à agricultura familiar, principalmente o projeto de conservação de quelônios, em que a comunidade é bastante engajada. Isso possibilita articular natureza, cultura, conservação e geração de renda local”, ressalta Rodrigo.
As propostas apresentadas durante essas devolutivas são resultado de um processo de levantamento e construção realizado ao longo de aproximadamente um ano. Nesse período, foram considerados aspectos culturais, sociais, ambientais, logísticos e financeiros dos territórios, além das ideias apresentadas pelos próprios moradores nas oficinas anteriores.
Participantes da aldeia do Marinheiro avançam nas propostas de experiências comunitárias. Foto: Casa do Rio.
De acordo com Rosivan Moura, analista de conservação da WCS Brasil, essa análise foi importante para transformar as sugestões iniciais em propostas que pudessem efetivamente ser realizadas pelas comunidades.
“Algumas oficinas tiveram uma chuva de ideias. Muitas foram reaproveitadas, enquanto outras não se aplicavam ao território naquele momento, porque eram inviáveis, encareciam muito a experiência ou precisavam de formação e certificação. Tudo isso foi triado para que aquilo que entrasse no roteiro tivesse uma estrutura de suporte”, explica.
Esse processo considerou não apenas os atrativos, mas também as condições para oferecer recepção, alimentação, hospedagem, deslocamento e condução dos visitantes. A partir dessas discussões, foram estruturadas possibilidades de experiências de um dia e de roteiros com pernoite, respeitando aquilo que cada território consegue oferecer.
“Não tem nada dentro do roteiro que o território não possa ofertar. Tudo foi fechado com base no que foi identificado durante as prospecções e trabalhado ao longo das oficinas”, afirma Rosivan.
Para Rodrigo, a devolutiva às comunidades é justamente o momento de conferir e aperfeiçoar esse trabalho antes de avançar para a implementação. “Fizemos a discussão e a validação dessas ideias com as comunidades e agora estamos procedendo com os ajustes que foram discutidos para chegar a uma versão final”, explica.
A partir da validação, o trabalho avança para a consolidação do portfólio de produtos turísticos, a seleção dos roteiros com melhores condições de implementação, a definição de preços e das formas de gestão comunitária. Uma das etapas seguintes é a realização de um teste com visitantes, colocando em prática um dos roteiros construídos para que a experiência possa ser avaliada e aprimorada.
“É uma metodologia de aprender fazendo. A ideia é colocar em prática aquilo que foi discutido e, a partir dessa experiência real, entender onde ainda é preciso melhorar”, resume Rodrigo.