Equipe do Memorial Chico Mendes (de camisa verde), Lene Praxedes e Adevaldo Costa, e equipe WCS Brasil. (Foto: Samuel Simões Neto)
O acesso à água potável e ao saneamento básico ainda representa um desafio para milhares de famílias que vivem em comunidades rurais da Amazônia.A fim de trocar experiências sobre tecnologias sociais disponíveis para transformar essas realidades, a WCS Brasil recebeu, no último dia 8 de julho, a visita do presidente do Memorial Chico Mendes (MCM), Antônio Adevaldo Dias da Costa,que apresentou a trajetória do Programa Sanear Amazônia, desenvolvido em comunidades dos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Pará e Rondônia.
Desde as primeiras experiências, realizadas em 2008, no Médio Juruá, mais de 10 mil famílias já foram ou estão sendo incluídas nas diferentes etapas do programa. As soluções incluem sistemas de acesso à água e estruturas de saneamento com banheiro, fossa, chuveiro, pia e lavatório.
De fácil implementação, essas tecnologias promovem melhorias diretas na saúde, na segurança hídrica e na qualidade de vida das famílias, que passam a ter acesso à água dentro de suas próprias residências.
Além da instalação das tecnologias, o projeto contempla atividades de formação e acompanhamento para que as próprias comunidades possam cuidar dos equipamentos, realizar manutenções e garantir sua utilização no longo prazo.
Após a apresentação, o dirigente do Memorial concedeu uma entrevista exclusiva sobre o programa. Confira:

Programa leva estrutura de saneamento e água para comunidades do interior da Amazônia. Foto: Divulgação
O que é o Programa Sanear Amazônia?
Adevaldo Dias – O Sanear Amazônia é uma oportunidade de levar água e saneamento para as comunidades extrativistas. Além de água segura, o programa oferece saneamento por meio de tecnologias sociais de fácil implementação, que mudam significativamente a qualidade de vida das pessoas.
Com essas tecnologias, as famílias passam a ter banheiro com fossa, chuveiro, pia e lavatório. Pessoas que antes não tinham acesso à água segura passam a ter água na própria residência. Isso representa mais dignidade e também mais saúde, porque água e saneamento estão diretamente relacionados à prevenção de doenças.
Atualmente, estamos implementando o programa em cinco estados da Amazônia: Amazonas, Pará, Acre, Amapá e Rondônia. A nossa expectativa é conseguir ampliá-lo para alcançar ainda mais famílias extrativistas.
Como surgiu o programa?
AD– O programa nasceu de uma experiência realizada em uma comunidade do Médio Juruá, em 2008. Depois de testarmos o modelo, ele passou a fazer parte de uma política pública do Governo Federal, em 2014, recebendo investimentos para levar as tecnologias de acesso à água e saneamento a outras comunidades extrativistas.
Entre 2014 e 2018, implementamos aproximadamente 4 mil tecnologias, atendendo cerca de 20 mil pessoas. Em 2024, iniciamos uma nova etapa para beneficiar mais de 3,6 mil famílias.
Agora, com recursos do Fundo Amazônia, começamos outra fase, que prevê atender cerca de 3,7 mil famílias. Considerando todas as etapas, estamos falando de mais de 10 mil unidades familiares beneficiadas com acesso à água e ao saneamento nas comunidades extrativistas da Amazônia.
Além de levar as tecnologias para as famílias, queremos fazer uma boa implementação, respeitando as características de cada território e garantindo que o investimento tenha resultados duradouros.
Quais são as expectativas de expansão do programa?
AD – Um dos nossos desafios é comunicar melhor o que o acesso à água e ao saneamento representa para a vida das comunidades extrativistas. Precisamos mostrar esses resultados para conseguir novos investimentos e levar as tecnologias a mais territórios.
Organizações como o Memorial Chico Mendes, a WCS e outras entidades que têm ligação com os territórios podem contribuir para identificar oportunidades de financiamento e ampliar esse trabalho.
Também precisamos implementar bem os recursos que já estão chegando. Quando os resultados aparecem e as famílias percebem as mudanças, isso pode despertar o interesse de outras comunidades, organizações e financiadores.
A demanda parte das próprias comunidades?
AD – As famílias apresentam suas necessidades por meio de suas organizações de base. Essas demandas são acolhidas pelas organizações parceiras, que possuem maior capacidade de comunicação e articulação para levá-las até os espaços políticos e até as instituições que podem realizar os investimentos.
É uma construção que começa nos territórios. As organizações parceiras ajudam a transformar essa demanda em projetos, políticas e oportunidades concretas.
Qual é o principal aprendizado acumulado ao longo desse trabalho?
AD – O primeiro aprendizado é que precisamos compreender muito bem a logística de cada comunidade para que o programa consiga chegar e funcionar adequadamente. Trabalhar na Amazônia envolve grandes distâncias e realidades muito diferentes entre os territórios.
Outro aprendizado importante é garantir que as tecnologias sirvam às famílias durante muito tempo. Não basta fazer a instalação. É necessário que a comunidade abrace a tecnologia, compreenda seu funcionamento e cuide dela.
As famílias também precisam estar preparadas para realizar pequenos reparos quando surgir algum problema. Assim, as estruturas terão uma vida útil mais longa e poderão continuar gerando saúde, dignidade e qualidade de vida por muitos anos.