Oficina reúne lideranças, jovens, mulheres e parceiros para definir estratégias de proteção territorial, fortalecimento cultural e promoção do Bem Viver

Participantes destacam principais demandas e expectativas das comunidades para a Terra Indígena. Fotos: Val Tikuna.
Lideranças indígenas, jovens, mulheres, anciãos e parceiros institucionais participam, de 16 a 18 de junho, da 4ª Oficina de Elaboração do Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) da Terra Indígena Matintin, realizada na Boa Vista, no município de Santo Antônio do Içá (AM).
A oficina marca uma etapa decisiva na construção do PGTA, instrumento que orientará as ações de gestão territorial e ambiental da TI Matintin nos próximos anos. Após um processo de pesquisa e diagnóstico realizado pelas próprias comunidades, os participantes se dedicam agora à construção de uma visão compartilhada de futuro para o território e à definição de estratégias para alcançá-la.
Segundo Ana Luiza Melgaço, coordenadora do Programa Povos e Territórios Indígenas da WCS Brasil, o processo chega a um momento fundamental de consolidação. “Já olhamos para o passado, como viviam, para a conquista dos direitos indígenas, para a demarcação do território e para a construção da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental. Também foi realizado o diagnóstico participativo para compreender a situação atual da Terra Indígena Matintin. Agora chegou o momento de imaginar como será o futuro desse território e construir, coletivamente, os caminhos para alcançá-lo”, destaca.

Para Reildo Picon, coordenador pedagógico da TI Matintin, esse planejamento representa um caminho para alcançar o futuro que querem chegar. “Pra gente, é uma grande oportunidade de trabalharmos juntos, decidirmos e colocar em prática”, garante Renildo.
Já Alysson Maciel Munduruku, da Articulação das Organizações e Povos Indígenas do Amazonas (APIAM), afirma que o plano representa uma ferramenta estratégica para fortalecer a autonomia das comunidades. “O PGTA é um instrumento de planejamento construído pelas próprias comunidades para organizar o uso, a proteção e o manejo de seus territórios e recursos naturais, considerando seus conhecimentos tradicionais, suas formas de organização e suas perspectivas para o futuro”, ressalta.
Ao longo dos três dias, os participantes revisitam os eixos temáticos definidos nas etapas anteriores do processo e trabalham na elaboração de matrizes de planejamento, identificando objetivos, resultados esperados, ações prioritárias, responsabilidades, parcerias e prazos de implementação.
De acordo com Ana Luiza, as informações levantadas pelas comunidades têm sido fundamentais para orientar a construção do plano. “Os principais desafios identificados pelas comunidades, potencialidades e prioridades do território estão subsidiando essa etapa de planejamento. É a partir desse conhecimento que estão sendo construídas as ações estratégicas, os acordos e os compromissos relacionados à proteção territorial, ao fortalecimento da cultura, ao uso sustentável dos recursos naturais e à promoção do bem viver”, assegura a coordenadora.

Além de orientar a gestão do território, o PGTA deverá fortalecer o diálogo entre as comunidades, instituições parceiras e políticas públicas, apoiando iniciativas já desenvolvidas localmente e estimulando novas estratégias de gestão ambiental e territorial. “Esse documento vai servir como um guia para as comunidades e também facilitar o diálogo com parceiros, instituições e políticas públicas. Ao mesmo tempo em que apoiamos a elaboração do PGTA, também fortalecemos iniciativas em curso de gestão territorial e ambiental, como o manejo da pesca, o monitoramento de quelônios e o fortalecimento das organizações indígenas locais”, afirma Ana Luiza.
Augustinho, liderança da TI Matintin, garante que sem a floresta, sem os recursos naturais vivos, não vai ter mais vida e “é preciso ter qualidade de vida para todos”. Ele afirma que o PGTA ˜está fazendo a gente pensar: a gente tem que continuar o que nossos avós faziam antigamente, o modo de viver; não podemos perder. Antigamente, nossa comida era mais natural, tinha mais fartura de peixe; a gente tinha mais união, trabalhava no coletivo. Hoje, tá diferente, nem todos se interessam nas discussões, nos trabalhos, mas vamos fortalecer isso, nossa forma de organização”, garante Augustinho.
A iniciativa é conduzida pelo Instituto Ngütapa e WCS Brasil, em parceria com APIAM e demais parceiros, e integra um processo mais amplo de fortalecimento da governança indígena e da gestão sustentável dos territórios na região do Alto rio Içá.

Saturnino Iumbato, representante do Instituto Ngütapa, já consegue identificar avanços desde o início da elaboração do PGTA na TI Matintin. “As comunidades estão trazendo suas ideias, comparando o que era antes com o que é hoje e pensando no que querem deixar para os filhos e netos. No começo, vinham mais para ouvir. Agora, as comunidades estão discutindo, questionando e dando encaminhamento. O pessoal já consegue enxergar melhor os problemas, mas também as coisas boas que temos e que precisam ser fortalecidas", explica Saturnino.
Após a conclusão da oficina, as contribuições serão sistematizadas dando início à elaboração da minuta do PGTA, documento que servirá como referência para orientar as ações de proteção territorial, uso sustentável dos recursos naturais e fortalecimento cultural da Terra Indígena Matintin para as futuras gerações. A versão preliminar do plano será discutida e finalizada pelas comunidades em um próximo encontro, garantindo que o documento reflita as decisões e prioridades definidas coletivamente ao longo do processo.
