Participação na atividade inicial de integração. Foto: Casa do Rio.
Por Rosivan Moura, da WCS Brasil
Participar do 1º Encontro dos Saberes – Lideranças Comunitárias foi vivenciar o início de uma nova etapa na construção coletiva que a Casa do Rio vem promovendo junto às comunidades localizadas ao longo da BR-319. Realizado em 24 de junho de 2026, o encontro criou um espaço de escuta, diálogo e valorização dos conhecimentos construídos diariamente nos territórios.
A Casa do Rio reuniu lideranças de 14 comunidades e coletivos, representantes de instituições parceiras e integrantes da equipe técnica. Mais do que cumprir uma programação, aquele momento nos permitiu conhecer diferentes experiências, histórias e formas de compreender a região. Cada contribuição reforçou que os caminhos para o desenvolvimento do território precisam ser construídos com as comunidades e a partir delas.
Uma das reflexões propostas durante o encontro partiu da pergunta: “Como você enxerga a BR-319 e como você se enxerga na BR-319?”. As respostas mostraram diferentes relações com a rodovia, com o território e com as transformações que vêm acontecendo na região. Ao mesmo tempo que reconhecem a necessidade de melhorias para as comunidades, as lideranças também destacam a importância de preservar a floresta, os modos de vida e os recursos dos quais dependem.
Essa escuta é fundamental. Quando falamos sobre a BR-319, não estamos tratando apenas de uma estrada. Estamos falando de pessoas, comunidades, culturas, histórias e sonhos. Estamos falando de territórios que precisam ser reconhecidos não somente pelos desafios que enfrentam, mas também pela capacidade de seus moradores de encontrar soluções, organizar-se e produzir conhecimentos.
Durante o encontro, conhecemos mais dos projetos desenvolvidos pela Casa do Rio e conversamos sobre o Centro de Saberes, pensado para receber formações, encontros, trocas de experiências e atividades voltadas ao fortalecimento das práticas culturais e tradicionais. A mensagem central foi: o Centro não deve ser entendido apenas como uma estrutura física. Ele precisa ser resultado da participação, do envolvimento e do protagonismo das comunidades.
Fran Araújo apresenta os projetos da organização. Foto: Casa do Rio.
Essa compreensão começou a ganhar forma concreta quando construímos um mapeamento de como cada comunidade poderá contribuir para a construção do chapéu de palha no Centro de Saberes. A proposta é que esse seja um espaço comunitário, feito com as comunidades e destinado às atividades das próprias comunidades. Sua construção representa o trabalho em equipe, a colaboração entre os territórios e a valorização dos saberes tradicionais.
Outro momento importante foi a leitura coletiva do Manifesto elaborado a partir das contribuições apresentadas pelas comunidades durante o Encontro de Lideranças de 2025. O documento reúne reflexões, demandas e propostas relacionadas ao fortalecimento comunitário, à bioeconomia, ao território, aos saberes e à governança.
Ao ouvir novamente essas vozes reunidas no Manifesto, percebemos que o encontro de 2026 não começou naquele dia. Ele faz parte de um processo que vem sendo construído ao longo do tempo, a partir da confiança, da presença nos territórios e da disposição para ouvir.
Centro de Saberes foi uma das pautas do encontro. Foto: Casa do Rio.
Este encontro reafirmou para mim que nenhuma transformação duradoura pode acontecer sem participação social. As comunidades não devem ser vistas apenas como beneficiárias de projetos ou receptoras de decisões tomadas por outras pessoas. Elas são as principais conhecedoras de seus territórios e precisam estar no centro das escolhas que afetam seus modos de vida.
Seguimos construindo esse caminho de forma coletiva, reconhecendo as diferenças, fortalecendo as relações e aprendendo com os conhecimentos que existem em cada comunidade. O Centro de Saberes nasce desse compromisso: ser um espaço de encontro, memória, formação e construção de futuros possíveis para as comunidades da BR-319.