"Nossa ancestralidade não conhece fronteiras.
Nosso território é um só.
Nosso povo é um só."
Participantes do Brasil, Colômbia e Peru, no 1º Encontro Transfronteiriço do Povo Magüta, realizado no Peru. Foto: Divulgação.
Por Ana Luiza Melgaço
Como coordenadora do Programa Povos e Territórios Indígenas da WCS Brasil, tive a alegria de acompanhar o 1º Encontro Transfronteiriço do Povo Magüta, realizado entre os dias 2 e 4 de julho de 2026. Mais do que um evento, foi o reencontro de um povo que nunca deixou de existir como um só, apesar das fronteiras impostas pela colonização e consolidadas pelos Estados do Brasil, Colômbia e Peru.
A viagem até chegar a Cushillo Cocha, para mim foi uma sensibilização e preparação para o Encontro. Foi mais de um dia navegando desde Manaus até Tabatinga, depois, em poucas horas, cruzei Brasil, Colômbia e Peru, em um táxi até Letícia, um barco rápido até Caballococha e um tuc-tuc até Cushillo Cocha. O mapa dizia que eu cruzava fronteiras. O rio contava outra história.
Aos poucos, fui tendo a certeza de que naquele pedaço da Amazônia, as fronteiras existem para os Estados, mas para muitos povos indígenas, o território continua sendo tecido pelas relações, pela memória e pela presença, cuja história é muito mais antiga do que as fronteiras nacionais. Ali, a fronteira parecia menos um limite e mais um continuum de caminhos, encontros e pertencimentos. Acho que foi essa a melhor forma de chegar no 1º Encontro Transfronteiriço do Povo Magüta.
O encontro foi uma realização das organizações indígenas Magüta dos três países, com destaque para a FOCCIT - Federação das Organizações e dos Caciques e Comunidades Indígenas Ticuna (Brasil), FECOTYBA - Federación de Comunidades Ticuna y Yaguas del Bajo Amazonas (Perú) e ACITAM - Asociación de Cabildos Indígenas del Trapecio Amazónico (Colômbia), contando com o apoio da Amazon Conservation Team, da FUNAI - Fundação Nacional dos Povos Indígenas e da Rainforest Foundation US, além da presença e contribuição de organizações parceiras como a ORPIO. A WCS Brasil apoiou a participação de lideranças Magüta da região do rio Içá e teve a oportunidade de contribuir com esse importante espaço de diálogo e articulação.
Fernando Hernández (ao centro) presidente da FECOTYBA e anfitrião do 1º Encontro Transfronteiriço do Povo Magüta, com representantes das organizações apoiadoras (ACT, Rainforest US, WCS Brasil e FUNAI). Foto: Sinésio Isaque
Durante três dias, mais de 200 lideranças, mulheres, jovens, anciãos, pajés, professores, caciques e representantes discutiram sobre o que priorizaram como o que realmente importa para o futuro do povo Magüta: a defesa do território, a governança própria, a saúde intercultural, a valorização da língua e da cultura, a proteção dos conhecimentos tradicionais e o fortalecimento da articulação política entre os três países.
O que mais me marcou foi perceber que todas essas discussões partiam de um mesmo princípio, o território Magüta é um só. As fronteiras nacionais existem nos mapas, mas não na história, na memória ou na forma como esse povo compreende seu território. Os rios continuam ligando famílias. A língua continua sendo compartilhada. Os rituais, os clãs (nações), os conhecimentos e os modos de vida continuam atravessando limites que foram definidos pelos Estados, mas nunca pelos ancestrais.
Participantes contribuem com os debates sobre governança, território e cooperação transfronteiriça durante o encontro. Foto: Valdenilson Eleutério Tikuna
Foi por isso que o encontro deu um passo tão importante. As lideranças decidiram fortalecer uma articulação permanente entre Brasil, Colômbia e Peru, com a criação da Organização Transfronteiriça da Nação Magüta, além de avançar em propostas conjuntas para vigilância territorial, fortalecimento da medicina tradicional, valorização da cultura e incidência política perante os três Estados.
Na prática, esse encontro representa muito mais do que a criação de uma nova organização. Ele inaugura um processo de longo prazo, conduzido pelo próprio povo Magüta, que desafia uma lógica ainda entranhada nas políticas públicas, a de que as fronteiras nacionais definem os limites de um povo.
O sonho compartilhado pelas lideranças é outro. É construir mecanismos para que direitos, políticas públicas, estratégias de proteção territorial e ações de fortalecimento cultural possam dialogar entre si e sejam acessíveis a todo o povo Magüta, independentemente do lado da fronteira em que cada comunidade esteja.
Anciã e lideranças apresentam as contribuições do eixo Cultura, com foco na valorização da identidade, da língua e dos conhecimentos do povo Magüta. Foto: Ana Luiza Melgaço
Esse é um desafio que exigirá a união das organizações indígenas, das instituições públicas e das organizações da sociedade civil que caminham ao lado do povo Magüta. Exigirá também disposição para reconhecer que, antes de existir Brasil, Colômbia e Peru, já existia esse território, essa cultura e esse povo.
Saio desse encontro convencida de que apoiar esse processo é muito mais do que apoiar uma agenda indígena. É contribuir para uma nova forma de pensar a cooperação na Amazônia, construída a partir do território vivido pelos próprios povos indígenas e não apenas das fronteiras desenhadas pelos Estados.
A frase inicial deste texto, repetida por muitos durante o encontro, continua ecoando em mim e talvez seja a melhor síntese de tudo o que foi vivido nesses dias:
"Nossa ancestralidade não conhece fronteiras. Nosso território é um só. Nosso povo é um só."
Volto de Cushillo Cocha, no Peru, com a consciência de ter participado de um momento histórico.
Celebração da Festa da Moça Nova (Yü'ü), um dos momentos culturais do 1º Encontro Transfronteiriço do Povo Magüta. Foto: Valdenilson Eleutério Tikuna