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        <title>WCS Brasil</title> 
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    <title>Construir caminhos a partir dos saberes das comunidades</title> 
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    <description>Participa&#231;&#227;o na atividade inicial de integra&#231;&#227;o. Foto: Casa do Rio.

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Por Rosivan Moura, da WCS Brasil

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Participar do 1&amp;ordm; Encontro dos Saberes &amp;ndash; Lideran&#231;as Comunit&#225;rias foi vivenciar o in&#237;cio de uma nova etapa na constru&#231;&#227;o coletiva que a Casa do Rio vem promovendo junto &#224;s comunidades localizadas ao longo da BR-319. Realizado em 24 de junho de 2026, o encontro criou um espa&#231;o de escuta, di&#225;logo e valoriza&#231;&#227;o dos conhecimentos constru&#237;dos diariamente nos territ&#243;rios.

A Casa do Rio reuniu lideran&#231;as de 14 comunidades e coletivos, representantes de institui&#231;&#245;es parceiras e integrantes da equipe t&#233;cnica. Mais do que cumprir uma programa&#231;&#227;o, aquele momento nos permitiu conhecer diferentes experi&#234;ncias, hist&#243;rias e formas de compreender a regi&#227;o. Cada contribui&#231;&#227;o refor&#231;ou que os caminhos para o desenvolvimento do territ&#243;rio precisam ser constru&#237;dos com as comunidades e a partir delas.

Uma das reflex&#245;es propostas durante o encontro partiu da pergunta: &amp;ldquo;Como voc&#234; enxerga a BR-319 e como voc&#234; se enxerga na BR-319?&amp;rdquo;. As respostas mostraram diferentes rela&#231;&#245;es com a rodovia, com o territ&#243;rio e com as transforma&#231;&#245;es que v&#234;m acontecendo na regi&#227;o. Ao mesmo tempo que reconhecem a necessidade de melhorias para as comunidades, as lideran&#231;as tamb&#233;m destacam a import&#226;ncia de preservar a floresta, os modos de vida e os recursos dos quais dependem.

Essa escuta &#233; fundamental. Quando falamos sobre a BR-319, n&#227;o estamos tratando apenas de uma estrada. Estamos falando de pessoas, comunidades, culturas, hist&#243;rias e sonhos. Estamos falando de territ&#243;rios que precisam ser reconhecidos n&#227;o somente pelos desafios que enfrentam, mas tamb&#233;m pela capacidade de seus moradores de encontrar solu&#231;&#245;es, organizar-se e produzir conhecimentos.

Durante o encontro, conhecemos mais dos projetos desenvolvidos pela Casa do Rio e conversamos sobre o Centro de Saberes, pensado para receber forma&#231;&#245;es, encontros, trocas de experi&#234;ncias e atividades voltadas ao fortalecimento das pr&#225;ticas culturais e tradicionais. A mensagem central foi: o Centro n&#227;o deve ser entendido apenas como uma estrutura f&#237;sica. Ele precisa ser resultado da participa&#231;&#227;o, do envolvimento e do protagonismo das comunidades.

Fran Ara&#250;jo apresenta os projetos da organiza&#231;&#227;o. Foto: Casa do Rio.

Essa compreens&#227;o come&#231;ou a ganhar forma concreta quando constru&#237;mos um mapeamento de como cada comunidade poder&#225; contribuir para a constru&#231;&#227;o do chap&#233;u de palha no Centro de Saberes. A proposta &#233; que esse seja um espa&#231;o comunit&#225;rio, feito com as comunidades e destinado &#224;s atividades das pr&#243;prias comunidades. Sua constru&#231;&#227;o representa o trabalho em equipe, a colabora&#231;&#227;o entre os territ&#243;rios e a valoriza&#231;&#227;o dos saberes tradicionais.

Outro momento importante foi a leitura coletiva do Manifesto elaborado a partir das contribui&#231;&#245;es apresentadas pelas comunidades durante o Encontro de Lideran&#231;as de 2025. O documento re&#250;ne reflex&#245;es, demandas e propostas relacionadas ao fortalecimento comunit&#225;rio, &#224; bioeconomia, ao territ&#243;rio, aos saberes e &#224; governan&#231;a.

Ao ouvir novamente essas vozes reunidas no Manifesto, percebemos que o encontro de 2026 n&#227;o come&#231;ou naquele dia. Ele faz parte de um processo que vem sendo constru&#237;do ao longo do tempo, a partir da confian&#231;a, da presen&#231;a nos territ&#243;rios e da disposi&#231;&#227;o para ouvir.

Centro de Saberes foi uma das pautas do encontro. Foto: Casa do Rio.

Este encontro reafirmou para mim que nenhuma transforma&#231;&#227;o duradoura pode acontecer sem participa&#231;&#227;o social. As comunidades n&#227;o devem ser vistas apenas como benefici&#225;rias de projetos ou receptoras de decis&#245;es tomadas por outras pessoas. Elas s&#227;o as principais conhecedoras de seus territ&#243;rios e precisam estar no centro das escolhas que afetam seus modos de vida.

Seguimos construindo esse caminho de forma coletiva, reconhecendo as diferen&#231;as, fortalecendo as rela&#231;&#245;es e aprendendo com os conhecimentos que existem em cada comunidade. O Centro de Saberes nasce desse compromisso: ser um espa&#231;o de encontro, mem&#243;ria, forma&#231;&#227;o e constru&#231;&#227;o de futuros poss&#237;veis para as comunidades da BR-319.

&amp;nbsp;
</description> 
    <dc:creator>Simoes, Samuel</dc:creator> 
    <pubDate>Tue, 11 Aug 2026 19:00:00 GMT</pubDate> 
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    <title>Dulce Nascimento: &quot;Observar a natureza com aten&#231;&#227;o &#233; tamb&#233;m uma forma de proteg&#234;-la&quot;</title> 
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    <description>Dulce Nascimento, durante abertura de exposi&#231;&#227;o de suas obras em Manaus, em agosto de 2026. Foto: Samuel Sim&#245;es Neto

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Ao longo de mais de quatro d&#233;cadas dedicadas &#224; ilustra&#231;&#227;o bot&#226;nica,&amp;nbsp;Dulce Nascimento&amp;nbsp;transformou a observa&#231;&#227;o da natureza em uma ponte entre ci&#234;ncia, arte e conserva&#231;&#227;o. Suas aquarelas, produzidas com rigor cient&#237;fico e sensibilidade art&#237;stica, registram a extraordin&#225;ria diversidade da flora brasileira e ajudam a comunicar, de forma acess&#237;vel, conhecimentos fundamentais para a pesquisa, a educa&#231;&#227;o ambiental e a valoriza&#231;&#227;o da biodiversidade.&amp;nbsp;

Essa trajet&#243;ria &#233; celebrada na exposi&#231;&#227;o&amp;nbsp;&amp;quot;Amaz&#244;nia Revelada &amp;ndash; 50 Expedi&#231;&#245;es de Ilustra&#231;&#227;o Bot&#226;nica&amp;quot;, que re&#250;ne obras produzidas ao longo de cinquenta expedi&#231;&#245;es realizadas na Amaz&#244;nia desde 1998. Mais do que retratos de plantas, as ilustra&#231;&#245;es revelam hist&#243;rias, paisagens e o olhar atento de quem fez da contempla&#231;&#227;o da natureza uma forma de conhecimento e de preserva&#231;&#227;o.&amp;nbsp;

Nesta entrevista, concedida &#224;&amp;nbsp;jornalista Ana C&#237;ntia Guazzelli, especialista de Comunica&#231;&#227;o da WCS Brasil, Dulce reflete sobre as transforma&#231;&#245;es que testemunhou na Amaz&#244;nia ao longo das &#250;ltimas d&#233;cadas, o papel da ilustra&#231;&#227;o cient&#237;fica em um mundo marcado pelas novas tecnologias, a forma&#231;&#227;o de novas gera&#231;&#245;es de ilustradores e a import&#226;ncia da arte como instrumento de sensibiliza&#231;&#227;o para a conserva&#231;&#227;o da biodiversidade.

Confira abaixo a entrevista na &#237;ntegra.

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WCS Brasil - Esta exposi&#231;&#227;o celebra sua 50&amp;ordf; viagem de ilustra&#231;&#227;o bot&#226;nica na Amaz&#244;nia. Quando voc&#234; olha para a primeira expedi&#231;&#227;o, em 1998, e para a Amaz&#244;nia que encontra hoje, quais transforma&#231;&#245;es mais a impactam &amp;mdash; tanto na paisagem quanto na rela&#231;&#227;o das pessoas com a floresta?&amp;nbsp;

Dulce Nascimento -&amp;nbsp;Ao olhar para minha primeira expedi&#231;&#227;o, em 1998, e compar&#225;-la com a Amaz&#244;nia que encontro hoje, percebo transforma&#231;&#245;es profundas, algumas inspiradoras, outras bastante preocupantes.&amp;nbsp;

A floresta continua extraordin&#225;ria em sua diversidade e capacidade de surpreender, mas tamb&#233;m carrega marcas cada vez mais vis&#237;veis da a&#231;&#227;o humana. Em muitas regi&#245;es, os impactos do desmatamento, das queimadas e das mudan&#231;as clim&#225;ticas alteraram a paisagem e trouxeram um sentimento de urg&#234;ncia que, h&#225; quase tr&#234;s d&#233;cadas, n&#227;o se manifestava com tanta intensidade.&amp;nbsp;

Ao mesmo tempo, tamb&#233;m observo uma crescente valoriza&#231;&#227;o da floresta por parte de pesquisadores, comunidades locais, povos ind&#237;genas e de uma parcela cada vez maior da sociedade. Hoje existe uma consci&#234;ncia mais ampla de que a Amaz&#244;nia n&#227;o &#233; apenas um patrim&#244;nio brasileiro, mas um patrim&#244;nio da humanidade, essencial para o equil&#237;brio clim&#225;tico e para a conserva&#231;&#227;o da biodiversidade.&amp;nbsp;

Esses anos de conviv&#234;ncia com a floresta refor&#231;aram em mim a certeza de que cada expedi&#231;&#227;o &#233;, antes de tudo, um exerc&#237;cio de escuta e respeito. A Amaz&#244;nia ensina que tudo est&#225; conectado e que nossa responsabilidade vai muito al&#233;m de documentar sua extraordin&#225;ria riqueza. Como ilustradora bot&#226;nica, sinto que meu trabalho tamb&#233;m &#233; uma forma de preservar a mem&#243;ria das esp&#233;cies, valorizar esse patrim&#244;nio natural e contribuir para que mais pessoas reconhe&#231;am a import&#226;ncia de proteger aquilo que ainda temos. Cada viagem renova meu compromisso com a ci&#234;ncia, com a arte e com a conserva&#231;&#227;o da floresta.&amp;nbsp;&amp;nbsp;

WCS Brasil - Em uma &#233;poca dominada por fotografias de alta resolu&#231;&#227;o e intelig&#234;ncia artificial, qual continua sendo o papel insubstitu&#237;vel da ilustra&#231;&#227;o bot&#226;nica para a ci&#234;ncia e para a conserva&#231;&#227;o da biodiversidade?&amp;nbsp;

DN -&amp;nbsp;Embora a fotografia de alta resolu&#231;&#227;o e a intelig&#234;ncia artificial tenham ampliado enormemente nossa capacidade de registrar e processar imagens, a ilustra&#231;&#227;o bot&#226;nica continua desempenhando um papel &#250;nico e insubstitu&#237;vel. Ela n&#227;o compete com essas tecnologias; ela as complementa.&amp;nbsp;

A fotografia registra um instante. A ilustra&#231;&#227;o bot&#226;nica interpreta e sintetiza o conhecimento sobre uma esp&#233;cie. O ilustrador observa cuidadosamente diversos exemplares, identifica suas caracter&#237;sticas mais representativas e re&#250;ne, em uma &#250;nica imagem, detalhes que dificilmente apareceriam simultaneamente em uma fotografia. Esse rigor torna a ilustra&#231;&#227;o uma ferramenta cient&#237;fica de grande precis&#227;o para estudos taxon&#244;micos, identifica&#231;&#227;o de esp&#233;cies e documenta&#231;&#227;o da biodiversidade.&amp;nbsp;

Al&#233;m do seu valor cient&#237;fico, a ilustra&#231;&#227;o bot&#226;nica estabelece uma rela&#231;&#227;o mais profunda entre o observador e a planta. O tempo dedicado &#224; observa&#231;&#227;o revela formas, estruturas e sutilezas que estimulam um olhar mais atento e sens&#237;vel para a natureza. Em um contexto de perda acelerada da biodiversidade, esse olhar &#233; essencial para fortalecer o reconhecimento da import&#226;ncia das esp&#233;cies e despertar o compromisso com sua conserva&#231;&#227;o.&amp;nbsp;

A tecnologia continuar&#225; evoluindo, mas a capacidade humana de observar com profundidade, interpretar a natureza e traduzir esse conhecimento em imagens que unem ci&#234;ncia, arte e sensibilidade permanece sendo a grande contribui&#231;&#227;o da ilustra&#231;&#227;o bot&#226;nica. &#201; justamente essa combina&#231;&#227;o que faz dela uma linguagem atemporal e indispens&#225;vel para a ci&#234;ncia e para a conserva&#231;&#227;o da biodiversidade.&amp;nbsp;&amp;nbsp;

WCS Brasil - Voc&#234; costuma afirmar que a ilustra&#231;&#227;o bot&#226;nica exige rigor cient&#237;fico e sensibilidade art&#237;stica. Como equilibrar essas duas dimens&#245;es sem que uma comprometa a outra?&amp;nbsp;

DN -&amp;nbsp;Para mim, rigor cient&#237;fico e sensibilidade art&#237;stica n&#227;o s&#227;o for&#231;as opostas, mas complementares. O rigor cient&#237;fico garante a fidelidade &#224; esp&#233;cie, &#224; sua morfologia e aos detalhes que permitem sua correta identifica&#231;&#227;o. J&#225; a sensibilidade art&#237;stica &#233; o que d&#225; vida &#224; ilustra&#231;&#227;o, conduzindo o olhar do observador e revelando a beleza, a harmonia e a singularidade de cada planta.&amp;nbsp;

O equil&#237;brio entre essas duas dimens&#245;es nasce, antes de tudo, da observa&#231;&#227;o. &#201; preciso observar com precis&#227;o, mas tamb&#233;m com encantamento. A ci&#234;ncia orienta minha m&#227;o; a arte orienta meu olhar. Uma exige conhecimento, m&#233;todo e disciplina. A outra pede sensibilidade, paci&#234;ncia e a capacidade de perceber aquilo que muitas vezes n&#227;o est&#225; evidente &#224; primeira vista.&amp;nbsp;

Acredito que uma boa ilustra&#231;&#227;o bot&#226;nica &#233; aquela em que a arte est&#225; a servi&#231;o da ci&#234;ncia, sem jamais&amp;nbsp;abrir m&#227;o da&amp;nbsp;emo&#231;&#227;o que desperta. O objetivo n&#227;o &#233; embelezar a natureza, porque ela j&#225; &#233; extraordinariamente bela, mas represent&#225;-la com verdade, clareza e respeito.&amp;nbsp;

&#201; justamente nesse encontro entre conhecimento e sensibilidade que a ilustra&#231;&#227;o bot&#226;nica encontra sua maior for&#231;a: comunicar ci&#234;ncia de forma precisa, ao mesmo tempo em que desperta nas pessoas admira&#231;&#227;o, curiosidade e um profundo compromisso com a conserva&#231;&#227;o da biodiversidade.&amp;nbsp;&amp;nbsp;

WCS Brasil -&amp;nbsp;Ao longo de d&#233;cadas documentando esp&#233;cies brasileiras, houve alguma planta ou encontro na floresta que tenha mudado sua forma de compreender a natureza ou mesmo seu papel como ilustradora?&amp;nbsp;

DN - &#201; dif&#237;cil destacar apenas um encontro, porque a floresta tem o poder de nos transformar continuamente. Ao longo de mais de quatro d&#233;cadas como ilustradora bot&#226;nica e de muitos anos conduzindo expedi&#231;&#245;es na Amaz&#244;nia, compreendi que cada esp&#233;cie, por mais discreta que seja, carrega uma hist&#243;ria evolutiva extraordin&#225;ria e desempenha um papel essencial no equil&#237;brio da vida.&amp;nbsp;

Talvez a maior mudan&#231;a n&#227;o tenha sido provocada por uma planta espec&#237;fica, mas pela pr&#243;pria conviv&#234;ncia com a floresta. A Amaz&#244;nia ensina humildade. Ela nos mostra que sempre haver&#225; mais para aprender, mais detalhes para observar e mais conex&#245;es para compreender. Quanto mais desenhava, mais percebia que a ilustra&#231;&#227;o n&#227;o era apenas uma forma de representar a natureza, mas tamb&#233;m um exerc&#237;cio de escuta, de paci&#234;ncia e de respeito.&amp;nbsp;

Essa viv&#234;ncia transformou profundamente meu papel como ilustradora. Passei a entender que cada desenho &#233; mais do que um registro cient&#237;fico: &#233; uma maneira de preservar a mem&#243;ria de esp&#233;cies, comunicar conhecimento e despertar nas pessoas o mesmo encantamento que sinto diante da extraordin&#225;ria diversidade da flora brasileira.&amp;nbsp;

A floresta continua sendo minha maior mestra. &#201; ela que, a cada expedi&#231;&#227;o, renova minha curiosidade, fortalece meu compromisso com a conserva&#231;&#227;o e me lembra que conhecer a natureza &#233;, acima de tudo, um ato de respeito e gratid&#227;o.&amp;nbsp;

WCS Brasil - Suas expedi&#231;&#245;es formaram centenas de alunos de diferentes pa&#237;ses e n&#237;veis de experi&#234;ncia. Qual &#233; a principal transforma&#231;&#227;o que voc&#234; observa nas pessoas ap&#243;s dias de observa&#231;&#227;o silenciosa e desenho em meio &#224; Amaz&#244;nia?&amp;nbsp;

DN - A transforma&#231;&#227;o mais bonita que observo n&#227;o acontece apenas no desenho, mas no olhar. Depois de alguns dias na Amaz&#244;nia, desenhando e convivendo com a floresta, as pessoas passam a enxergar o que antes lhes era invis&#237;vel. Elas desaceleram, desenvolvem a capacidade de observar com aten&#231;&#227;o e descobrem que a natureza revela sua beleza aos poucos, para quem est&#225; disposto a dedicar tempo e sil&#234;ncio.&amp;nbsp;

A ilustra&#231;&#227;o bot&#226;nica exige paci&#234;ncia, presen&#231;a e respeito. Durante esse processo, muitos alunos percebem que desenhar uma planta n&#227;o &#233; apenas reproduzir suas formas, mas compreender sua estrutura, sua hist&#243;ria e seu papel no ecossistema. Essa experi&#234;ncia transforma a maneira como se relacionam com a natureza.&amp;nbsp;

Independentemente da idade, da nacionalidade ou da experi&#234;ncia art&#237;stica, vejo que todos retornam diferentes. Levam consigo um olhar mais sens&#237;vel, mais curioso e mais consciente sobre a import&#226;ncia da biodiversidade. E acredito que essa seja a maior aprendizagem: entender que somos parte da natureza e que cuidar dela come&#231;a, antes de tudo, pela capacidade de observ&#225;-la com aten&#231;&#227;o, encantamento e respeito.&amp;nbsp;&amp;nbsp;

WCS Brasil - Seu trabalho ajudou a levar a flora brasileira a espa&#231;os de grande visibilidade internacional, incluindo obras presentes em pal&#225;cios reais e institui&#231;&#245;es estrangeiras. Na sua vis&#227;o, o Brasil reconhece hoje a import&#226;ncia estrat&#233;gica da ilustra&#231;&#227;o cient&#237;fica para valorizar seu patrim&#244;nio natural?&amp;nbsp;

DN -&amp;nbsp;Embora existam iniciativas de grande relev&#226;ncia, a ilustra&#231;&#227;o cient&#237;fica nem sempre recebe o reconhecimento estrat&#233;gico que merece como instrumento de pesquisa, documenta&#231;&#227;o, educa&#231;&#227;o e conserva&#231;&#227;o da biodiversidade.&amp;nbsp;

Um pa&#237;s que abriga uma das maiores diversidades biol&#243;gicas do planeta deveria investir cada vez mais na valoriza&#231;&#227;o dessa &#225;rea, fortalecendo a forma&#231;&#227;o de novos ilustradores, ampliando o apoio &#224;s institui&#231;&#245;es de pesquisa e promovendo o di&#225;logo entre ci&#234;ncia, arte e sociedade. A ilustra&#231;&#227;o cient&#237;fica traduz conhecimentos complexos em imagens precisas e acess&#237;veis, aproximando o p&#250;blico da riqueza natural brasileira e contribuindo para sua preserva&#231;&#227;o.&amp;nbsp;

Acredito que valorizar a ilustra&#231;&#227;o cient&#237;fica &#233; tamb&#233;m valorizar a nossa identidade, a nossa biodiversidade e a mem&#243;ria do patrim&#244;nio natural que temos a responsabilidade de conhecer, proteger e transmitir &#224;s futuras gera&#231;&#245;es.&amp;nbsp;&amp;nbsp;

WCS Brasil -&amp;nbsp;Em um cen&#225;rio de perda acelerada de biodiversidade, voc&#234; acredita que a ilustra&#231;&#227;o bot&#226;nica pode atuar tamb&#233;m como uma ferramenta de sensibiliza&#231;&#227;o ambiental e mobiliza&#231;&#227;o social? De que forma?&amp;nbsp;

DN - Acredito que sim: em um momento de perda alarmante da biodiversidade, a ilustra&#231;&#227;o bot&#226;nica deixa de ser registro cient&#237;fico ou express&#227;o art&#237;stica e se torna uma poderosa ferramenta de sensibiliza&#231;&#227;o ambiental.&amp;nbsp;

Cada ilustra&#231;&#227;o &#233;, de certa forma, um testemunho da riqueza da nossa flora e um convite &#224; reflex&#227;o sobre a urg&#234;ncia de sua conserva&#231;&#227;o. Se meu trabalho conseguir despertar em algu&#233;m um novo olhar para a natureza e a vontade de cuidar dela, acredito que a arte j&#225;&amp;nbsp;estar&#225; cumprindo&amp;nbsp;uma das suas mais nobres miss&#245;es: transformar conhecimento em consci&#234;ncia e consci&#234;ncia em a&#231;&#227;o.&amp;nbsp;

Em um momento em que a biodiversidade desaparece em um ritmo alarmante, a ilustra&#231;&#227;o bot&#226;nica deixa de ser apenas um registro cient&#237;fico ou uma express&#227;o art&#237;stica para se tornar tamb&#233;m uma poderosa ferramenta de sensibiliza&#231;&#227;o ambiental.&amp;nbsp;

Quando uma pessoa observa uma ilustra&#231;&#227;o bot&#226;nica, ela &#233; convidada a enxergar detalhes que, muitas vezes, passariam despercebidos na natureza: a delicadeza das nervuras de uma folha, a arquitetura de uma flor, a textura de um tronco e o infinito de tons de verde presentes na vegeta&#231;&#227;o.&amp;nbsp;

Esse processo de contempla&#231;&#227;o desperta curiosidade, aproxima o p&#250;blico da ci&#234;ncia e fortalece o v&#237;nculo afetivo com a biodiversidade. E sabemos que as pessoas tendem a proteger aquilo que conhecem e valorizam.&amp;nbsp;

Por isso, acredito que a ilustra&#231;&#227;o bot&#226;nica tem um papel importante na mobiliza&#231;&#227;o social. Ela comunica de forma acess&#237;vel, emociona sem&amp;nbsp;abrir m&#227;o do&amp;nbsp;rigor cient&#237;fico e ajuda a construir uma cultura de respeito pela natureza. Em tempos de tantos desafios ambientais, essa capacidade de sensibilizar talvez seja uma das maiores contribui&#231;&#245;es que a arte possa oferecer &#224; conserva&#231;&#227;o.&amp;nbsp;&amp;nbsp;

WCS Brasil -&amp;nbsp;Depois de quase 30 anos conduzindo expedi&#231;&#245;es e mais de 40 anos dedicados &#224; ilustra&#231;&#227;o bot&#226;nica, o que ainda desperta seu encantamento quando voc&#234; se senta diante de uma planta para desenh&#225;-la?&amp;nbsp;

DN - O encantamento continua sendo exatamente o mesmo que me levou a escolher esse caminho: a infinita capacidade que cada planta tem de revelar algo novo. Por mais de quarenta anos que eu desenhe e por mais de cinquenta expedi&#231;&#245;es que tenha realizado na Amaz&#244;nia, nunca me sentei diante de uma esp&#233;cie pensando que j&#225; sabia tudo sobre ela.&amp;nbsp;

Cada planta possui uma identidade pr&#243;pria, uma arquitetura &#250;nica, um ritmo de crescimento, uma combina&#231;&#227;o de formas, cores e texturas que convida &#224; observa&#231;&#227;o cuidadosa. &#201; nesse tempo de contempla&#231;&#227;o que surgem descobertas. Quanto mais observo, mais percebo a extraordin&#225;ria intelig&#234;ncia e beleza presentes na natureza.&amp;nbsp;

A ilustra&#231;&#227;o bot&#226;nica me ensinou que desenhar &#233;, antes de tudo, um exerc&#237;cio de humildade. A planta conduz o olhar, dita o tempo e revela seus detalhes pouco a pouco. Meu papel &#233; escut&#225;-la com aten&#231;&#227;o e traduzir, com rigor cient&#237;fico e sensibilidade art&#237;stica, aquilo que ela tem a contar.&amp;nbsp;

Talvez seja justamente essa possibilidade permanente de aprender e de me surpreender que mantenha vivo o meu encantamento. Enquanto existir uma planta para observar, haver&#225; tamb&#233;m uma nova hist&#243;ria para descobrir, registrar e compartilhar. E acredito que esse olhar atento e respeitoso seja uma das formas mais profundas de celebrar e preservar a extraordin&#225;ria diversidade da vida.&amp;nbsp;

&amp;nbsp;
</description> 
    <dc:creator>Simoes, Samuel</dc:creator> 
    <pubDate>Tue, 04 Aug 2026 21:25:00 GMT</pubDate> 
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    <title>Quando as fronteiras desaparecem | 1&#186; Encontro Transfronteiri&#231;o do Povo Mag&#252;ta, Cushillo Cocha, Peru</title> 
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    <description>&amp;nbsp;

&amp;quot;Nossa ancestralidade n&#227;o conhece fronteiras. 

Nosso territ&#243;rio &#233; um s&#243;. 

Nosso povo &#233; um s&#243;.&amp;quot;

Participantes do Brasil, Col&#244;mbia e Peru, no 1&amp;ordm; Encontro Transfronteiri&#231;o do Povo Mag&#252;ta, realizado no Peru. Foto: Divulga&#231;&#227;o.

&amp;nbsp;

Por Ana Luiza Melga&#231;o, da WCS Brasil

&amp;nbsp;

Como coordenadora do Programa Povos e Territ&#243;rios Ind&#237;genas da WCS Brasil, tive a alegria de acompanhar o 1&amp;ordm; Encontro Transfronteiri&#231;o do Povo Mag&#252;ta, realizado entre os dias 2 e 4 de julho de 2026. Mais do que um evento, foi o reencontro de um povo que nunca deixou de existir como um s&#243;, apesar das fronteiras impostas pela coloniza&#231;&#227;o e consolidadas pelos Estados do Brasil, Col&#244;mbia e Peru.

A viagem at&#233; chegar a Cushillo Cocha, para mim foi uma sensibiliza&#231;&#227;o e prepara&#231;&#227;o para o Encontro. Foi mais de um dia navegando desde Manaus at&#233; Tabatinga, depois, em poucas horas, cruzei Brasil, Col&#244;mbia e Peru, em um t&#225;xi at&#233; Let&#237;cia, um barco r&#225;pido at&#233; Caballococha e um tuc-tuc at&#233; Cushillo Cocha. O mapa dizia que eu cruzava fronteiras. O rio contava outra hist&#243;ria. 

Aos poucos, fui tendo a certeza de que naquele peda&#231;o da Amaz&#244;nia, as fronteiras existem para os Estados, mas para muitos povos ind&#237;genas, o territ&#243;rio continua sendo tecido pelas rela&#231;&#245;es, pela mem&#243;ria e pela presen&#231;a, cuja hist&#243;ria &#233; muito mais antiga do que as fronteiras nacionais. Ali, a fronteira parecia menos um limite e mais um continuum de caminhos, encontros e pertencimentos. Acho que foi essa a melhor forma de chegar no 1&amp;ordm; Encontro Transfronteiri&#231;o do Povo Mag&#252;ta.

O encontro foi uma realiza&#231;&#227;o das organiza&#231;&#245;es ind&#237;genas Mag&#252;ta dos tr&#234;s pa&#237;ses, com destaque para a FOCCIT - Federa&#231;&#227;o das Organiza&#231;&#245;es e dos Caciques e Comunidades Ind&#237;genas Ticuna (Brasil), FECOTYBA - Federaci&#243;n de Comunidades Ticuna y Yaguas del Bajo Amazonas (Per&#250;) e ACITAM - Asociaci&#243;n de Cabildos Ind&#237;genas del Trapecio Amaz&#243;nico (Col&#244;mbia), contando com o apoio da Amazon Conservation Team, da FUNAI - Funda&#231;&#227;o Nacional dos Povos Ind&#237;genas e da Rainforest Foundation US, al&#233;m da presen&#231;a e contribui&#231;&#227;o de organiza&#231;&#245;es parceiras como a ORPIO. A WCS Brasil apoiou a participa&#231;&#227;o de lideran&#231;as Mag&#252;ta da regi&#227;o do rio I&#231;&#225; e teve a oportunidade de contribuir com esse importante espa&#231;o de di&#225;logo e articula&#231;&#227;o.

Fernando Hern&#225;ndez (ao centro) presidente da FECOTYBA e anfitri&#227;o do 1&amp;ordm; Encontro Transfronteiri&#231;o do Povo Mag&#252;ta, com representantes das organiza&#231;&#245;es apoiadoras (ACT, Rainforest US, WCS Brasil e FUNAI). Foto: Sin&#233;sio Isaque

&amp;nbsp;

Durante tr&#234;s dias, mais de 200 lideran&#231;as, mulheres, jovens, anci&#227;os, paj&#233;s, professores, caciques e representantes discutiram sobre o que priorizaram como o que realmente importa para o futuro do povo Mag&#252;ta: a defesa do territ&#243;rio, a governan&#231;a pr&#243;pria, a sa&#250;de intercultural, a valoriza&#231;&#227;o da l&#237;ngua e da cultura, a prote&#231;&#227;o dos conhecimentos tradicionais e o fortalecimento da articula&#231;&#227;o pol&#237;tica entre os tr&#234;s pa&#237;ses.

O que mais me marcou foi perceber que todas essas discuss&#245;es partiam de um mesmo princ&#237;pio, o territ&#243;rio Mag&#252;ta &#233; um s&#243;. As fronteiras nacionais existem nos mapas, mas n&#227;o na hist&#243;ria, na mem&#243;ria ou na forma como esse povo compreende seu territ&#243;rio. Os rios continuam ligando fam&#237;lias. A l&#237;ngua continua sendo compartilhada. Os rituais, os cl&#227;s (na&#231;&#245;es), os conhecimentos e os modos de vida continuam atravessando limites que foram definidos pelos Estados, mas nunca pelos ancestrais.

Participantes contribuem com os debates sobre governan&#231;a, territ&#243;rio e coopera&#231;&#227;o transfronteiri&#231;a durante o encontro. Foto: Valdenilson Eleut&#233;rio Tikuna

Foi por isso que o encontro deu um passo t&#227;o importante. As lideran&#231;as decidiram fortalecer uma articula&#231;&#227;o permanente entre Brasil, Col&#244;mbia e Peru, com a cria&#231;&#227;o da Organiza&#231;&#227;o Transfronteiri&#231;a da Na&#231;&#227;o Mag&#252;ta, al&#233;m de avan&#231;ar em propostas conjuntas para vigil&#226;ncia territorial, fortalecimento da medicina tradicional, valoriza&#231;&#227;o da cultura e incid&#234;ncia pol&#237;tica perante os tr&#234;s Estados.

Na pr&#225;tica, esse encontro representa muito mais do que a cria&#231;&#227;o de uma nova organiza&#231;&#227;o. Ele inaugura um processo de longo prazo, conduzido pelo pr&#243;prio povo Mag&#252;ta, que desafia uma l&#243;gica ainda entranhada nas pol&#237;ticas p&#250;blicas, a de que as fronteiras nacionais definem os limites de um povo.

O sonho compartilhado pelas lideran&#231;as &#233; outro. &#201; construir mecanismos para que direitos, pol&#237;ticas p&#250;blicas, estrat&#233;gias de prote&#231;&#227;o territorial e a&#231;&#245;es de fortalecimento cultural possam dialogar entre si e sejam acess&#237;veis a todo o povo Mag&#252;ta, independentemente do lado da fronteira em que cada comunidade esteja.

Anci&#227; e lideran&#231;as apresentam as contribui&#231;&#245;es do eixo Cultura, com foco na valoriza&#231;&#227;o da identidade, da l&#237;ngua e dos conhecimentos do povo Mag&#252;ta. Foto: Ana Luiza Melga&#231;o

Esse &#233; um desafio que exigir&#225; a uni&#227;o das organiza&#231;&#245;es ind&#237;genas, das institui&#231;&#245;es p&#250;blicas e das organiza&#231;&#245;es da sociedade civil que caminham ao lado do povo Mag&#252;ta. Exigir&#225; tamb&#233;m disposi&#231;&#227;o para reconhecer que, antes de existir Brasil, Col&#244;mbia e Peru, j&#225; existia esse territ&#243;rio, essa cultura e esse povo.

Saio desse encontro convencida de que apoiar esse processo &#233; muito mais do que apoiar uma agenda ind&#237;gena. &#201; contribuir para uma nova forma de pensar a coopera&#231;&#227;o na Amaz&#244;nia, constru&#237;da a partir do territ&#243;rio vivido pelos pr&#243;prios povos ind&#237;genas e n&#227;o apenas das fronteiras desenhadas pelos Estados.

A frase inicial deste&amp;nbsp;texto, repetida por muitos durante o encontro, continua ecoando em mim e talvez seja a melhor s&#237;ntese de tudo o que foi vivido nesses dias:

&amp;quot;Nossa ancestralidade n&#227;o conhece fronteiras. Nosso territ&#243;rio &#233; um s&#243;. Nosso povo &#233; um s&#243;.&amp;quot;

Volto de Cushillo Cocha, no Peru, com a consci&#234;ncia de ter participado de um momento hist&#243;rico.

Celebra&#231;&#227;o da Festa da Mo&#231;a Nova (Y&#252;&amp;#39;&#252;), um dos momentos culturais do 1&amp;ordm; Encontro Transfronteiri&#231;o do Povo Mag&#252;ta. Foto: Valdenilson Eleut&#233;rio Tikuna

&amp;nbsp;
</description> 
    <dc:creator>Simoes, Samuel</dc:creator> 
    <pubDate>Tue, 07 Jul 2026 21:09:00 GMT</pubDate> 
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    <title>Geleiras, florestas e rios: a grande rede que define nossa identidade e nosso futuro</title> 
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    <description>Parque Nacional de Anavilhanas, no Amazonas, Brasil. Foto: Marcos Amend.

&amp;nbsp;

Publicado originalmente em Wildlife Conservation Society

&amp;nbsp;

Em meados de mar&#231;o, o calend&#225;rio ambiental re&#250;ne tr&#234;s datas comemorativas: o Dia Mundial das Geleiras (21), o Dia Internacional das Florestas (21) e o Dia Mundial da &#193;gua (22). Embora pare&#231;am datas distintas, na realidade essas tem&#225;ticas falam de uma hist&#243;ria de interconex&#227;o entre as geleiras, as florestas e a &#225;gua como um &#250;nicosistema vivo. Na regi&#227;o andino-amaz&#244;nica, essa conex&#227;o que sustenta a vida, tanto silvestre quanto humana, &#233; hoje mais fr&#225;gil do que nunca, diante de uma s&#233;rie de amea&#231;as que convidamos voc&#234; a conhecer a seguir.

Os Andes: onde nasce a &#225;gua da floresta 

A mais de 4.000 metros de altitude, as geleiras tropicais funcionaram durante mil&#234;nios como os grandes reguladores h&#237;dricos do continente. Seu papel &#233; vital: guardam a &#225;gua das chuvas na forma de gelo e a liberam aos poucos nas &#233;pocas de seca. Isso garante a estabilidade das vaz&#245;es que alimentam as cabeceiras da maior rede h&#237;drica do planeta: a Bacia Amaz&#244;nica.

No entanto, esse equil&#237;brio est&#225; se perdendo. Os Andes abrigam o sistema de geleiras tropicais mais extenso do mundo, mas tamb&#233;m um dos mais vulner&#225;veis. Segundo dados do Servi&#231;o Mundial de Monitoramento de Geleiras (WGMS) e da UNESCO (2025), essas geleiras se reduzem 35% mais r&#225;pido do que a m&#233;dia global. Em pa&#237;sescomo Bol&#237;via, Peru, Equador e Col&#244;mbia, mais de 50% do gelo glacial foi perdido nas &#250;ltimas seis d&#233;cadas, de acordo com dados do Painel Intergovernamental sobre Mudan&#231;as Clim&#225;ticas (IPCC) e do Instituto Nacional de Pesquisa em Geleiras e Ecossistemas de Montanha (INAIGEM) do Peru.

Esse recuo marca a chegada do pico h&#237;drico: o limiar de m&#225;xima descarga de &#225;gua ap&#243;s o qual a contribui&#231;&#227;o glacial come&#231;a a declinar de forma irrevers&#237;vel. Uma vez superado esse ponto, a capacidade do gelo de amortecer as secas desaparece, deixando os rios e as popula&#231;&#245;es em situa&#231;&#227;o de vulnerabilidade h&#237;drica permanente. Isso n&#227;oapenas altera paisagens ic&#244;nicas, como tamb&#233;m coloca em risco a seguran&#231;a h&#237;drica de grandes cidades como Bogot&#225;, Quito, Lima e La Paz, e compromete a sobreviv&#234;ncia de ecossistemas &#250;nicos como os p&#225;ramos e a puna.

Segundo o Atlas de Geleiras e &#193;guas Andinas da UNESCO, o que est&#225; em jogo &#233; o abastecimento de &#225;gua para mais de 75 milh&#245;es de pessoas. Mas a amea&#231;a vai al&#233;m da torneira das grandes cidades: falamos da seguran&#231;a alimentar de comunidades que dependem da pesca, do equil&#237;brio clim&#225;tico que sustenta o campo e da sobreviv&#234;ncia de culturas ind&#237;genas cuja identidade est&#225; entrela&#231;ada entre a montanha, o rio e a floresta. Se esse sistema colapsar, perdemos o principal escudo natural que temos frente &#224;s mudan&#231;as clim&#225;ticas.

A floresta: motor do ciclo da &#225;gua 

Quando a &#225;gua termina sua descida pelos Andes e entra na plan&#237;cie amaz&#244;nica, o ciclo se transforma. Aqui, a floresta n&#227;o apenas recebe a &#225;gua, ela a recircula ativamente para a atmosfera. Por meio da evapotranspira&#231;&#227;o, as &#225;rvores bombeiam umidade em quantidades colossais. Esse fen&#244;meno, identificado pela ci&#234;ncia como &amp;#39;rios voadores&amp;#39;, consiste em fluxos massivos de vapor d&amp;#39;&#225;gua que se deslocam por milhares de quil&#244;metros. Essas correntes, al&#233;m de recarregar de umidade a Amaz&#244;nia e os Andes, tamb&#233;m geram as chuvas essenciais para a agricultura e o consumo humano em todo o continente.

Pesquisas lideradas pelo cientista Eneas Salati, respaldadas por especialistas como Carlos Nobre, estabeleceram que a Amaz&#244;nia produz cerca de 50% de sua pr&#243;pria chuva. Esse processo de reciclagem de precipita&#231;&#227;o permite que a floresta mantenha o ciclo da &#225;gua ativo e que essa umidade sustente a maior biodiversidade de &#225;gua docedo planeta: mais de 3.000 esp&#233;cies de peixes, segundo o Instituto Smithsoniano e a Amazon Conservation, das quais dependem a alimenta&#231;&#227;o e a cultura de milhares de comunidades ribeirinhas e ind&#237;genas e de milh&#245;es de pessoas em toda a Bacia Amaz&#244;nica.

A &#225;gua: fluxo vital que articula a rede natural 

A fragmenta&#231;&#227;o dos rios por barragens, a contamina&#231;&#227;o, especialmente por merc&#250;rio, e a sobreexplora&#231;&#227;o de seus recursos est&#227;o alterando a din&#226;mica natural das &#225;guas amaz&#244;nicas. Como resultado, os sistemas h&#237;dricos perdem funcionalidade, afetando diretamente as comunidades que deles dependem e que come&#231;am a sofrer as consequ&#234;ncias de sua degrada&#231;&#227;o.

A essas press&#245;es soma-se a perda acelerada de florestas. Segundo o Global Forest Watch (WRI) e o Projeto MAAP, a Amaz&#244;nia perde cobertura florestal a um ritmo de 2 hectares por minuto. Com menos &#225;rvores, diminui a capacidade do solo de reter &#225;gua, o que intensifica eventos extremos como inunda&#231;&#245;es mais severas e secas maisprolongadas e intensas.

A&#231;&#245;es integrais a partir do territ&#243;rio: a contribui&#231;&#227;o da WCS na regi&#227;o Andes, Amaz&#244;nia, Orinoqu&#237;a 

Na WCS, desenvolvemos e implementamos estrat&#233;gias de conserva&#231;&#227;o para que respondam &#224; complexidade de cada paisagem sob uma premissa central: a conectividade. Entendemos os rios como sistemas din&#226;micos dos quais a vida depende, desde os sedimentos que fertilizam as plan&#237;cies at&#233; as migra&#231;&#245;es de peixes que garantem a seguran&#231;a alimentar regional. Por isso, na regi&#227;o Andes-Amaz&#244;nia-Orinoqu&#237;a, nosso trabalho se desenvolve com uma vis&#227;o integral, dos p&#225;ramos &#224;s plan&#237;cies inund&#225;veis, promovendo que as decis&#245;es sobre a &#225;gua n&#227;o ignorem o que acontece na outra extremidade da bacia.

Por exemplo, na Col&#244;mbia e no Equador, impulsionamos a prote&#231;&#227;o de ecossistemas-chave como os p&#225;ramos alto-andinos que se conectam com as florestas &#250;midas de terras baixas na Amaz&#244;nia. No Peru e na Bol&#237;via, fortalecemos a gest&#227;o de territ&#243;rios ind&#237;genas e &#225;reas protegidas para que grandes art&#233;rias como os rios Napo, Ucayali ouMamor&#233; conservem sua integridade. No Brasil, lideramos esfor&#231;os para consolidar o manejo comunit&#225;rio da pesca e a conserva&#231;&#227;o das florestas inund&#225;veis (v&#225;rzeas).

Esses esfor&#231;os se potencializam com abordagens transfronteiri&#231;as, como na bacia do Putumayo-I&#231;&#225;, onde trabalhamos pela conserva&#231;&#227;o e gest&#227;o integrada dos recursos naturais e fontes de &#225;gua doce desse corredor biol&#243;gico e cultural vital, que n&#227;o conhece fronteiras e une Col&#244;mbia, Equador, Peru e Brasil.

Da mesma forma, por meio da iniciativa &#193;guas Amaz&#244;nicas, consolidamos redes de monitoramento participativo e gest&#227;o sustent&#225;vel que combinam o conhecimento local e a evid&#234;ncia cient&#237;fica para manter a integridade e a conectividade dos ecossistemas aqu&#225;ticos da Bacia Amaz&#244;nica.

No &#226;mbito dessas comemora&#231;&#245;es, o chamado &#233; para compreender o sistema em seu conjunto: o que ocorre nas geleiras dos Andes influencia o futuro da Amaz&#244;nia, e a sa&#250;de das florestas determina a disponibilidade de &#225;gua nas cidades e comunidades. Mais do que datas isoladas, trata-se de um convite a reconhecer a interdepend&#234;ncia entre geleira, floresta e rio como parte de um mesmo sistema.

&amp;nbsp;

Wildlife Conservation Society (WCS) 

A WCS combina a for&#231;a de seus quatro zool&#243;gicos e um aqu&#225;rio na cidade de Nova York com um Programa Global de Conserva&#231;&#227;o que opera em mais de 50 pa&#237;ses, para cumprir sua miss&#227;o de salvar a vida silvestre e os lugares naturais. A WCS lidera o maior programa de conserva&#231;&#227;o de campo do mundo, contribuindo para a prote&#231;&#227;o de mais de 50% da biodiversidade conhecida do planeta, em parceria com governos, povos ind&#237;genas, comunidades locais e o setor privado.

Seu trabalho &#233; organizado por meio de programas regionais, como o programa Andes, Amaz&#244;nia e Orinoqu&#237;a, que abrange Bol&#237;via, Brasil, Col&#244;mbia, Equador e Peru, de onde impulsiona iniciativas estrat&#233;gicas e executa a&#231;&#245;es de conserva&#231;&#227;o eficazes em paisagens priorit&#225;rias.
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    <dc:creator>Simoes, Samuel</dc:creator> 
    <pubDate>Fri, 20 Mar 2026 18:34:00 GMT</pubDate> 
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    <title>Carta: Apelo urgente para priorizar a biodiversidade no pr&#243;ximo Instrumento Europa Global (GEI)</title> 
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    <description>&amp;nbsp;

Prezada Embaixadora Christina Rafti,

Escrevemos em nome de algumas das principais organiza&#231;&#245;es mundiais de conserva&#231;&#227;o, meio ambiente, sa&#250;de e bem-estar animal e desenvolvimento, bem como de institui&#231;&#245;es de pesquisa e cient&#237;ficas, grupos de jovens, funda&#231;&#245;es, empresas, associa&#231;&#245;es de meios de subsist&#234;ncia e autoridades locais, para inst&#225;-la a priorizar a biodiversidade no pr&#243;ximo&amp;nbsp;Instrumento Europa Global&amp;nbsp;(anteriormente Instrumento de Vizinhan&#231;a, Desenvolvimento e Coopera&#231;&#227;o Internacional &amp;ndash; Europa Global&amp;nbsp;&amp;ndash; NDICI-GE).

Ecossistemas saud&#225;veis e &#237;ntegros &amp;mdash; e a vida silvestre que eles sustentam &amp;mdash; sustentam a resili&#234;ncia ambiental, social e econ&#244;mica. Eles s&#227;o essenciais para a adapta&#231;&#227;o e mitiga&#231;&#227;o das mudan&#231;as clim&#225;ticas, a seguran&#231;a alimentar e h&#237;drica, a sa&#250;de p&#250;blica e o saneamento&amp;sup1;, o desenvolvimento econ&#244;mico, a gera&#231;&#227;o de empregos e meios de vida sustent&#225;veis, bem como para a paz duradoura e a seguran&#231;a humana&amp;sup2;. A perda de biodiversidade, particularmente em regi&#245;es vulner&#225;veis, alimenta conflitos, deslocamentos e press&#245;es migrat&#243;rias, minando a estabilidade&amp;sup3;.

O&amp;nbsp;Relat&#243;rio de Riscos Globais 2026, do F&#243;rum Econ&#244;mico Mundial, &#233; inequ&#237;voco: eventos clim&#225;ticos extremos, perda de biodiversidade e colapso dos ecossistemas, e mudan&#231;as cr&#237;ticas nos sistemas da Terra representam os tr&#234;s riscos globais mais graves para a economia na pr&#243;xima d&#233;cada &amp;mdash; superando amea&#231;as como desinforma&#231;&#227;o e informa&#231;&#245;es falsas, resultados adversos de tecnologias de intelig&#234;ncia artificial, desigualdade, inseguran&#231;a cibern&#233;tica e polariza&#231;&#227;o social⁴.

Saudamos o compromisso assumido em 2021 pela Presidente von der Leyen de dobrar o financiamento internacional da Uni&#227;o Europeia para a biodiversidade, alcan&#231;ando&amp;nbsp;7 bilh&#245;es de euros at&#233; 2027. Esse compromisso enviou um importante sinal pol&#237;tico. No entanto, ele permanece insuficiente para enfrentar a escala da crise da biodiversidade e, no atual quadro or&#231;ament&#225;rio da UE para 2021&amp;ndash;2027, &#233; improv&#225;vel que o compromisso da UE de destinar&amp;nbsp;10% dos gastos anuais &#224; biodiversidade at&#233; 2026&amp;ndash;2027&amp;nbsp;seja alcan&#231;ado⁵.

Nesse contexto, estamos profundamente preocupados com a proposta de estabelecer uma &#250;nica meta de&amp;nbsp;30% de gastos para &amp;ldquo;Meio Ambiente e Clima&amp;rdquo;&amp;nbsp;no Instrumento Europa Global, sem priorizar explicitamente a biodiversidade. Embora a defini&#231;&#227;o de uma meta seja bem-vinda, ela &#233; insuficientemente ambiciosa e corre o risco de diluir as a&#231;&#245;es urgentemente necess&#225;rias para deter e reverter a perda de biodiversidade e a degrada&#231;&#227;o dos ecossistemas.

Os objetivos clim&#225;ticos e ambientais n&#227;o podem ser alcan&#231;ados sem financiamento dedicado e mensur&#225;vel para a conserva&#231;&#227;o da biodiversidade e a prote&#231;&#227;o e restaura&#231;&#227;o dos ecossistemas. Al&#233;m disso, um ambiente saud&#225;vel &#233; pr&#233;-requisito para alcan&#231;ar os objetivos do&amp;nbsp;Global Gateway, especialmente o desenvolvimento econ&#244;mico sustent&#225;vel e resiliente e a transi&#231;&#227;o verde.

Priorizar explicitamente a biodiversidade no InstrumentoEuropa Global n&#227;o apenas fortaleceria a efic&#225;cia da a&#231;&#227;o externa da Uni&#227;o Europeia, como tamb&#233;m estaria plenamente alinhado e contribuiria para implementar os compromissos e obriga&#231;&#245;es internacionais da UE e de seus Estados-Membros, por meio da&amp;nbsp;Conven&#231;&#227;o sobre Diversidade Biol&#243;gica&amp;nbsp;e de seu&amp;nbsp;Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal⁶, bem como de outros Acordos Ambientais Multilaterais relevantes.

Diante disso, instamos firmemente que:


 
 a meta de gastos com clima e meio ambiente do GEI seja elevada para&amp;nbsp;pelo menos 50%, com&amp;nbsp;no m&#237;nimo 15% dedicados &#224; biodiversidade;
 
 
 a biodiversidade seja&amp;nbsp;sistematicamente integrada em todos os setores relevantes, incluindo coopera&#231;&#227;o internacional, parcerias, com&#233;rcio e pol&#237;ticas de investimento;
 
 
 os objetivos de biodiversidade sejam&amp;nbsp;incorporados ao Global Gateway; e
 
 
 se avance al&#233;m de uma abordagem de&amp;nbsp;&amp;ldquo;n&#227;o causar danos&amp;rdquo;, passando a promover investimentos proativos em resili&#234;ncia dos ecossistemas e desenvolvimento positivo para a natureza.
 


Em um mundo cada vez mais vol&#225;til e fragmentado, a Uni&#227;o Europeia deve liderar com clareza e ambi&#231;&#227;o. A seguran&#231;a socioecon&#244;mica e a competitividade de longo prazo da Europa dependem, em &#250;ltima inst&#226;ncia, de um ambiente saud&#225;vel &amp;mdash; tanto dentro da Uni&#227;o quanto al&#233;m de suas fronteiras. Contamos com sua lideran&#231;a para reconhecer a gravidade desses riscos e agir de forma decisiva.

Teremos satisfa&#231;&#227;o em fornecer informa&#231;&#245;es adicionais e ficar&#237;amos honrados em nos reunir com a senhora para discutir essas quest&#245;es com maior profundidade.

Atenciosamente,


&amp;nbsp;


 
 IPBES.&amp;nbsp;Thematic Assessment Report on the Interlinkages among Biodiversity, Water, Food and Health.
 
 
 A National Security Assessment: Global Biodiversity Loss, Ecosystem Collapse and National Security.
 
 
 Uni&#227;o Europeia.&amp;nbsp;Study on the Interaction Between Security and Wildlife Conservation in Sub-Saharan Africa.
 
 
 World Economic Forum.&amp;nbsp;Global Risks Report 2026.
 
 
 Uni&#227;o Europeia.&amp;nbsp;EU Budget: Performance and Reporting.
 
 
 Conven&#231;&#227;o sobre Diversidade Biol&#243;gica.&amp;nbsp;Kunming-Montreal Global Biodiversity Framework.
 


&amp;nbsp;

Acesse a carta original (em ingl&#234;s) com as organiza&#231;&#245;es signat&#225;rias&amp;nbsp;neste link.

&amp;nbsp;

&amp;nbsp;
</description> 
    <dc:creator>Simoes, Samuel</dc:creator> 
    <pubDate>Mon, 02 Mar 2026 13:49:00 GMT</pubDate> 
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    <comments>https://brasil.wcs.org/pt-br/Fique-por-dentro/Artigos-e-Opinião/ID/25932/Relato-de-Campo-inauguracao-do-Museu-Tchirugune-e-reuniao-com-liderancas-do-Alto-Ica.aspx#Comments</comments> 
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    <title>Relato de Campo: inaugura&#231;&#227;o do Museu Tchirug&#252;ne e reuni&#227;o com lideran&#231;as do Alto I&#231;&#225;</title> 
    <link>https://brasil.wcs.org/pt-br/Fique-por-dentro/Artigos-e-Opinião/ID/25932/Relato-de-Campo-inauguracao-do-Museu-Tchirugune-e-reuniao-com-liderancas-do-Alto-Ica.aspx</link> 
    <description>&amp;nbsp;

Por Francivane Fernandes, da WCS Brasil

&amp;nbsp;

No dia 24 de janeiro de 2026, estive na aldeia Vila Bet&#226;nia&amp;nbsp;Mec&#252;rane, na Terra Ind&#237;gena Bet&#226;nia, em Santo Ant&#244;nio do I&#231;&#225; (AM), para acompanhar dois momentos importantes no territ&#243;rio: a inaugura&#231;&#227;o do Museu Ind&#237;gena&amp;nbsp;Tchirug&#252;ne&amp;nbsp;e uma reuni&#227;o com lideran&#231;as ind&#237;genas do Alto Rio I&#231;&#225; para dialogar sobre organiza&#231;&#227;o comunit&#225;ria e defesa territorial.&amp;nbsp;



Lideran&#231;as ind&#237;genas do Alto Rio I&#231;&#225;. (Foto: Francivane Fernandes @WCS)

A inaugura&#231;&#227;o do museu foi um marco para o povo Tikuna. A iniciativa, articulada pelo Instituto&amp;nbsp;Ngutapa&amp;nbsp;com apoio de parceiros como a WCS Brasil, materializa um sonho coletivo. O nome&amp;nbsp;Tchirug&#252;ne&amp;nbsp;significa &amp;ldquo;pouso das andorinhas&amp;rdquo;, como explicou Sin&#233;sio Trov&#227;o, presidente do Instituto &amp;mdash; uma imagem simb&#243;lica para um espa&#231;o que nasce como abrigo da mem&#243;ria e dos saberes.&amp;nbsp;



Dan&#231;a tradicional&amp;nbsp;Taimataima. (Foto: Francivane Fernandes @WCS)

A cerim&#244;nia reuniu cerca de 530 pessoas e foi marcada por dan&#231;as, cantos ancestrais, jogos tradicionais e partilha de comidas e bebidas t&#237;picas. Mais do que uma celebra&#231;&#227;o, foi um gesto de reafirma&#231;&#227;o cultural. O museu se consolida como um centro vivo de transmiss&#227;o de conhecimentos, identidade e tradi&#231;&#245;es, concebido e liderado pelo pr&#243;prio povo Tikuna.&amp;nbsp;

Estar ali representando a WCS Brasil foi uma experi&#234;ncia potente. No territ&#243;rio, fica evidente como cultura e conserva&#231;&#227;o caminham juntas. Quando a hist&#243;ria e os saberes de um povo s&#227;o valorizados e visibilizados, fortalecem-se tamb&#233;m a conex&#227;o com a terra, a autonomia e a defesa do territ&#243;rio ancestral.&amp;nbsp;



Bebida tradicional&amp;nbsp;Pajuaru&amp;nbsp;(macaxeira fermentada). (Foto: Francivane Fernandes @WCS)&amp;nbsp;

No mesmo contexto da visita, me reuni com lideran&#231;as ind&#237;genas Kokama, Tikuna e&amp;nbsp;Kambeba&amp;nbsp;do Alto Rio I&#231;&#225;, em uma conversa pautada pela escuta ativa e pelo di&#225;logo franco. Falamos sobre desafios e estrat&#233;gias para fortalecer a organiza&#231;&#227;o comunit&#225;ria na regi&#227;o.&amp;nbsp;

A parceria da WCS com as comunidades do Alto I&#231;&#225; j&#225; est&#225; em curso. Temos apoiado a defesa do territ&#243;rio, buscando garantir seguran&#231;a fundi&#225;ria e articulando a coopera&#231;&#227;o com a Funai para viabilizar os estudos de identifica&#231;&#227;o e delimita&#231;&#227;o &amp;mdash; etapa que est&#225; em andamento. Tamb&#233;m est&#225; previsto o apoio &#224; prote&#231;&#227;o territorial por meio de monitoramento e vigil&#226;ncia, al&#233;m de a&#231;&#245;es voltadas ao ordenamento da pesca na regi&#227;o, envolvendo ind&#237;genas e n&#227;o ind&#237;genas.&amp;nbsp;



Fortalecendo a parceria entre a WCS e as lideran&#231;as Tikunas, Sin&#233;sio Trov&#227;o Tikuna l, Diretor do Museu&amp;nbsp;Tchirug&#252;ne&amp;nbsp;e Elis&amp;nbsp;Olisio&amp;nbsp;Tikuna, diretor-presidente do Instituto&amp;nbsp;Ngutapa. (Foto: Francivane Fernandes @WCS)&amp;nbsp;

No campo da organiza&#231;&#227;o social, o fortalecimento passa por processos de forma&#231;&#227;o e articula&#231;&#227;o. Representantes ind&#237;genas t&#234;m participado de cursos sobre direitos ind&#237;genas e PNGATI, al&#233;m de espa&#231;os estrat&#233;gicos como a COP da Biodiversidade e o ATL, ampliando sua inser&#231;&#227;o no movimento ind&#237;gena e nos debates nacionais. O pr&#243;ximo passo nesse processo &#233; apoiar a formaliza&#231;&#227;o de uma organiza&#231;&#227;o pr&#243;pria que represente os povos do Alto Rio I&#231;&#225;.&amp;nbsp;

Sair de Bet&#226;nia depois desse encontro deixou uma certeza: quando os povos ind&#237;genas lideram seus processos &amp;mdash; culturais, pol&#237;ticos e territoriais &amp;mdash; o territ&#243;rio se fortalece como um todo. E nosso papel &#233; seguir apoiando, com respeito e compromisso, cada passo dessa caminhada.&amp;nbsp;



Participantes da reuni&#227;o com as lideran&#231;as ind&#237;genas do alto Rio I&#231;&#225;, sobre a cria&#231;&#227;o de uma Associa&#231;&#227;o Comunit&#225;ria do Alto Rio I&#231;&#225;. (Foto: Arquivo Francivane Fernandes)

&amp;nbsp;

&amp;nbsp;
</description> 
    <dc:creator></dc:creator> 
    <pubDate>Tue, 03 Feb 2026 14:37:00 GMT</pubDate> 
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    <title>Ci&#234;ncia intercultural: di&#225;logo entre ci&#234;ncia ind&#237;gena e ci&#234;ncia ocidental na constru&#231;&#227;o do bem viver</title> 
    <link>https://brasil.wcs.org/pt-br/Fique-por-dentro/Artigos-e-Opinião/ID/25929/Ciencia-intercultural-dialogo-entre-ciencia-indigena-e-ciencia-ocidental-na-construcao-do-bem-viver.aspx</link> 
    <description>&amp;nbsp;

Por Andr&#233; Baniwa1&amp;nbsp;e Ana Luiza Melga&#231;o2

&amp;nbsp;

Desde que o homem Yalanaw3&amp;nbsp;pensou em dominar o mundo, pensou tamb&#233;m em inferiorizar outros povos nativos como parte de seu projeto de domina&#231;&#227;o. Nessa perspectiva, os sistemas de conhecimento dos povos ind&#237;genas foram sistematicamente inferiorizados e invisibilizados.&amp;nbsp;&amp;nbsp;

No Brasil, o chamado&amp;nbsp;&amp;#39;descobrimento&amp;#39;&amp;nbsp;significou viol&#234;ncia contra os sistemas de conhecimentos ind&#237;genas e suas tecnologias, por meio de demoniza&#231;&#227;o de conhecimentos, imposi&#231;&#227;o de modelos externos e ruptura das tecnologias tradicionais de cuidado. Promovendo uma hierarquia de conhecimento, como estrat&#233;gia de coloniza&#231;&#227;o, de colonialidade e neocolonialismo para domina&#231;&#227;o dos territ&#243;rios ind&#237;genas, base de vida e de seus conhecimentos.&amp;nbsp;

Durante s&#233;culos, o conhecimento ind&#237;gena foi rotulado como &amp;#39;saber tradicional&amp;#39; ou &amp;#39;conhecimento popular&amp;#39;, enquanto o conhecimento ocidental recebeu o&amp;nbsp;status&amp;nbsp;de ci&#234;ncia. Essa distin&#231;&#227;o n&#227;o &#233; neutra: &#233; o reflexo de um processo hist&#243;rico de coloniza&#231;&#227;o epistemol&#243;gica, que deslegitimou modos de pensar e conhecer que n&#227;o se enquadravam no modelo europeu de racionalidade.&amp;nbsp;&amp;nbsp;

Nacionaliza&#231;&#245;es de territ&#243;rios ind&#237;genas em todo mundo foi uma forma definitiva de inferioriza&#231;&#227;o. Povos foram expropriados, l&#237;nguas e suas tecnologias foram interrompidas. No Brasil foram 488 anos sem direito ind&#237;gena, colocaram em d&#250;vida se os povos ind&#237;genas tinham alma para justificar as matan&#231;as, dizima&#231;&#227;o dos povos ind&#237;genas, suas l&#237;nguas, al&#233;m de seus conhecimentos, ambos fundamentais para o manejo de conhecimentos e sua transmiss&#227;o de gera&#231;&#227;o a gera&#231;&#227;o, al&#233;m de cuidado e prote&#231;&#227;o de seus territ&#243;rios herdados de &#209;apirikoli4&amp;nbsp;que chamava a humanidade de Walimanai.&amp;nbsp;

Em apenas menos de quatro d&#233;cadas de direito ind&#237;gena na Constitui&#231;&#227;o da Rep&#250;blica do Brasil de 5 de outubro de 1988, que possibilitou aos povos ind&#237;genas a retomada de suas pr&#243;prias ci&#234;ncias, foi ent&#227;o que os povos ind&#237;genas voltaram a se organizar originariamente e formalmente em defesa de seus direitos, reconquistar parte de seus territ&#243;rios via direito origin&#225;rio sobre suas terras, fortalecendo sua organiza&#231;&#227;o social, suas l&#237;nguas, costumes e conhecimentos origin&#225;rios, isto &#233; suas culturas, seus sistemas de vida, seus conhecimentos pr&#225;ticos.&amp;nbsp;&amp;nbsp;

Al&#233;m da Constitui&#231;&#227;o de 1988, mais recentemente, o avan&#231;o da crescente presen&#231;a ind&#237;gena nas universidades e institutos de pesquisa, os povos est&#227;o acessando a forma&#231;&#227;o acad&#234;mica nas universidades, gradua&#231;&#227;o, mestrado, doutorado e p&#243;s-doutorado.&amp;nbsp;&amp;nbsp; Com isso, abriu-se um novo ciclo: o de retomada e afirma&#231;&#227;o das ci&#234;ncias ind&#237;genas como sistemas leg&#237;timos, aut&#244;nomos e necess&#225;rios &#224; reconstru&#231;&#227;o do bem viver. Todos esses sistemas de consolidar e/ou reconstruir o bem viver dos povos ind&#237;genas s&#227;o fundamentais para projetar a contribui&#231;&#227;o e lideran&#231;a desses povos frente a reconstru&#231;&#227;o do bem viver da humanidade.&amp;nbsp;&amp;nbsp;

Mesmo assim, a ci&#234;ncia ocidental ou tamb&#233;m chamada ci&#234;ncia moderna, segue na perspectiva de denominar os conhecimentos ind&#237;genas em &amp;ldquo;saberes&amp;rdquo;. Qual ser&#225; a dificuldade de reconhecer os sistemas de conhecimentos ind&#237;genas, como Ci&#234;ncia Ind&#237;gena, em rela&#231;&#227;o a Ci&#234;ncia, Tecnologia e Inova&#231;&#227;o. Sim, sabemos que em muitos casos &#233; uma tentativa de reconhecimento, mas ainda n&#227;o passa de continuidade de coloniza&#231;&#227;o, demonstra que n&#227;o se sabe como se livrar desta pr&#225;tica, ou seja, as ci&#234;ncias dominantes que s&#227;o feitas em cima de conhecimentos que ela inferioriza se verificou dependente com essa pr&#225;tica, ela precisa inferiorizar para existir. Esse gesto impede o di&#225;logo sim&#233;trico e perpetua a colonialidade do pensamento e das tomadas de decis&#227;o.&amp;nbsp;

Em contrapartida, as ci&#234;ncias ind&#237;genas, os conhecimentos ind&#237;genas, as tecnologias de cuidado dos povos ind&#237;genas n&#227;o precisam diminuir outros sistemas para existir. Elas reconhecem a pluralidade do conhecimento e partem do princ&#237;pio de que todas as formas de saber podem coexistir, desde que orientadas para o cuidado e a continuidade da vida. Essa &#233; a base da ci&#234;ncia intercultural: um espa&#231;o de encontro entre epistemologias diferentes, sem hierarquias.&amp;nbsp;

Esse debate ainda &#233; necess&#225;rio, visto que as agendas na COP30, cartas de comunidades cient&#237;ficas e tecnol&#243;gicas, demandas e negocia&#231;&#245;es em jogo, ainda se posicionam de forma a ter como narrativa a import&#226;ncia do reconhecimento dos conhecimentos ind&#237;genas, os tratando como &amp;ldquo;saberes tradicionais&amp;rdquo;, ignorando sua natureza cient&#237;fica e tecnol&#243;gica. Reproduzindo e demonstrando a incapacidade estrutural de reconhecer as ci&#234;ncias ind&#237;genas, seus sistemas de conhecimentos pr&#243;prios e suas tecnologias, interrompidas pela coloniza&#231;&#227;o, mas hoje em regenera&#231;&#227;o.&amp;nbsp;

Cada povo ind&#237;gena possui sistemas pr&#243;prios de conhecimento, organizados em fam&#237;lias lingu&#237;sticas e troncos lingu&#237;sticos s&#227;o suas organiza&#231;&#245;es sociais origin&#225;rias, diversas, demonstra riqueza e complexidade de ci&#234;ncias pr&#243;prias muito importante para o manejo do mundo e conserva&#231;&#227;o da biodiversidade.&amp;nbsp;&amp;nbsp;

Nesse contexto, &#225;reas como etnobiologia, etnoecologia, antropologia e outras, atrav&#233;s de cientistas n&#227;o-ind&#237;genas t&#234;m demonstrado a import&#226;ncia dos conhecimentos ind&#237;genas e dialogado com esses conhecimentos, juntamente com cientistas ind&#237;genas acad&#234;micos, possibilitando esse reconhecimento da diversidade epistemol&#243;gica. Entretanto, a maioria dessas pr&#225;ticas ainda requer valida&#231;&#227;o pela ci&#234;ncia ocidental, o que mant&#233;m o desequil&#237;brio simb&#243;lico: os povos ind&#237;genas continuam sendo &amp;ldquo;fontes de dados&amp;rdquo;, e n&#227;o autores de ci&#234;ncia.&amp;nbsp;

O desafio atual n&#227;o &#233; &amp;ldquo;integrar&amp;rdquo; o conhecimento ind&#237;gena &#224; ci&#234;ncia ocidental, mas construir um di&#225;logo sim&#233;trico entre ci&#234;ncias. Isso exige o reconhecimento pol&#237;tico e institucional das ci&#234;ncias ind&#237;genas como epistemologias aut&#244;nomas, e n&#227;o como fontes de &amp;ldquo;dados tradicionais&amp;rdquo;. Reconhecer como cientista ind&#237;gena, n&#227;o apenas os que chegam na academia, mas os que produzem, manejam e transmitem sistemas completos de conhecimento, nos centros dos territ&#243;rios, na floresta, nos rios e nos sonhos. &#201; aceitar e tratar de fato o conhecimento ind&#237;gena como ci&#234;ncia.&amp;nbsp;&amp;nbsp;

Reconhecer que as ci&#234;ncias ind&#237;genas e a ci&#234;ncia ocidental s&#227;o igualmente ci&#234;ncias &#233; romper com a hierarquia constru&#237;da pela colonialidade do saber. Ambas produzem conhecimento sistem&#225;tico, emp&#237;rico e coerente, mas partem de fundamentos distintos. Para enfrentar desafios globais como as mudan&#231;as clim&#225;ticas, a perda de biodiversidade e a crise &#233;tica da civiliza&#231;&#227;o moderna, &#233; necess&#225;rio esse reconhecimento.&amp;nbsp;

O caminho aqui proposto &#233; o da parceria entre ci&#234;ncias, onde o conhecimento cient&#237;fico ocidental deixa de ser filtro e passa a ser um dos interlocutores dentro de um di&#225;logo mais amplo sobre como cuidar da Terra e da humanidade. A reconstru&#231;&#227;o do bem viver exige cora&#231;&#245;es e mentes abertas ao di&#225;logo verdadeiro, capazes de reconhecer que ningu&#233;m det&#233;m o monop&#243;lio da ci&#234;ncia, e que o conhecimento &#233; m&#250;ltiplo, relacional e t&#227;o diverso quanto a pr&#243;pria Terra.&amp;nbsp;&amp;nbsp;

Essa mudan&#231;a n&#227;o deve ser entendida como concess&#227;o, mas como necessidade. Para a humanidade superar as crises ambientais e &#233;ticas, os compromissos assumidos na COP30 e a a&#231;&#227;o global devem acontecer com base na ci&#234;ncia intercultural, onde cada forma de conhecer colabora para compreender, proteger e regenerar o mundo.&amp;nbsp;&amp;nbsp;

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1 -&amp;nbsp;Pesquisador do bem viver e das medicinas ind&#237;genas, Assessor da SESAI, Conselheiro da WCS Brasil.&amp;nbsp;&amp;nbsp;

2 -&amp;nbsp;Mestre em Conserva&#231;&#227;o da Biodiversidade&amp;nbsp;e&amp;nbsp;Coordenadora do Programa de Povos e Territ&#243;rios Ind&#237;genas da WCS Brasil.&amp;nbsp;

3 -&amp;nbsp;Yalanawi&amp;nbsp;na l&#237;ngua&amp;nbsp;baniwa&amp;nbsp;significa n&#227;o ind&#237;gena, &amp;ldquo;pessoa branca&amp;rdquo;.&amp;nbsp;

4 -&amp;nbsp;Na cosmologia Baniwa, &#209;apirikoli e os seus dois irm&#227;os (Dzooli e Eeri), que formam a fam&#237;lia ancestral, s&#227;o heroicos criadores da humanidade.
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    <pubDate>Sat, 08 Nov 2025 14:32:00 GMT</pubDate> 
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    <title>WCS e a COP30 da UNFCCC</title> 
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    <description>&amp;nbsp;

A COP30 precisa eliminar a baixa ambi&#231;&#227;o em mitiga&#231;&#227;o e financiamento, avan&#231;ar em uma transi&#231;&#227;o justa e na adapta&#231;&#227;o clim&#225;tica, reconhecer o papel de lideran&#231;a dos Povos Ind&#237;genas e comunidades locais e consolidar compromissos para eliminar gradualmente o uso de combust&#237;veis f&#243;sseis e o desmatamento.

A WCS, organiza&#231;&#227;o dedicada &#224; conserva&#231;&#227;o de esp&#233;cies, restaura&#231;&#227;o da integridade ecol&#243;gica e promo&#231;&#227;o de solu&#231;&#245;es naturais para o clima, considera a COP da Amaz&#244;nia um momento crucial para reconhecer a natureza, a integridade ecol&#243;gica e a lideran&#231;a ind&#237;gena como partes essenciais da agenda clim&#225;tica.

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Integridade ecol&#243;gica nos resultados negociados

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Integridade ecol&#243;gica como elo entre clima e natureza: Diversas negocia&#231;&#245;es recentes destacaram a necessidade de maior coer&#234;ncia entre as tr&#234;s Conven&#231;&#245;es do Rio. A COP30 deve transformar palavras em a&#231;&#227;o. As Partes devem elevar o item 15 da agenda do SBSTA 63 &amp;mdash; &amp;ldquo;Coopera&#231;&#227;o com organiza&#231;&#245;es internacionais&amp;rdquo; &amp;mdash; a uma decis&#227;o plena da COP/CMA que estabele&#231;a um Grupo Ad Hoc de Especialistas T&#233;cnicos (AHTEG), encarregado de recomendar formas de alinhar melhor a UNFCCC com a CDB e a UNCCD. O grupo tamb&#233;m deve propor arranjos institucionais, como um programa conjunto de trabalho e a revitaliza&#231;&#227;o do Grupo de Liga&#231;&#227;o Conjunto. Essa coopera&#231;&#227;o deve se basear na integridade ecol&#243;gica &amp;mdash; princ&#237;pio fundamental do Acordo de Paris &amp;mdash; como objetivo unificador para a conserva&#231;&#227;o da biodiversidade e a a&#231;&#227;o clim&#225;tica voltada &#224; natureza.

Integridade ecol&#243;gica como m&#233;trica de adapta&#231;&#227;o: A COP30 deve concluir o programa de trabalho Emirados &#193;rabes&amp;ndash;Bel&#233;m sobre indicadores da Meta Global de Adapta&#231;&#227;o (GGA), adotando um conjunto robusto e abrangente de indicadores para uso pelos governos nacionais. Para a Meta 9.d &amp;mdash; reduzir os impactos clim&#225;ticos sobre ecossistemas e biodiversidade &amp;mdash; os indicadores devem refletir o papel essencial da integridade ecol&#243;gica e a rela&#231;&#227;o entre sua perda e o risco de colapso dos ecossistemas. Indicadores atualmente propostos focam apenas na extens&#227;o dos ecossistemas e n&#227;o em sua condi&#231;&#227;o ou integridade. Caso n&#227;o haja consenso, o tema deve ser inclu&#237;do em decis&#227;o futura.

Combate ao desmatamento e &#224; degrada&#231;&#227;o florestal: A COP30 deve estabelecer um processo claro e com prazos definidos para implementar a decis&#227;o da COP28 sobre o Balan&#231;o Global, que pede esfor&#231;os refor&#231;ados para deter e reverter o desmatamento e a degrada&#231;&#227;o florestal at&#233; 2030. Os pa&#237;ses devem elaborar um plano conjunto com avalia&#231;&#227;o global de progresso e lacunas, prazos, metas e marcos intermedi&#225;rios, salvaguardas sociais e recomenda&#231;&#245;es a serem adotadas nas pr&#243;ximas COPs.

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Lideran&#231;a nacional em a&#231;&#227;o clim&#225;tica

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Natureza como estrat&#233;gia de mitiga&#231;&#227;o: A COP30 ser&#225; um momento-chave para avaliar a ambi&#231;&#227;o das novas Contribui&#231;&#245;es Nacionalmente Determinadas (NDCs 3.0). A WCS continua defendendo a conserva&#231;&#227;o como elemento central da mitiga&#231;&#227;o, colaborando com parceiros para integrar a prote&#231;&#227;o dos ecossistemas &#224;s metas clim&#225;ticas nacionais. A COP30 deve dar destaque a medidas concretas que ampliem e fortale&#231;am a conserva&#231;&#227;o dentro das NDCs. As Partes devem incluir o reconhecimento e a demarca&#231;&#227;o dos Territ&#243;rios Ind&#237;genas e Tradicionais (TITs) como pol&#237;tica de mitiga&#231;&#227;o clim&#225;tica, reconhecendo seu papel essencial na conserva&#231;&#227;o da biodiversidade e na regula&#231;&#227;o do clima global. A WCS recomenda, por exemplo, o reconhecimento da NDC Ind&#237;gena do Brasil e a demarca&#231;&#227;o das 270 terras ind&#237;genas atualmente em processo de regulariza&#231;&#227;o, al&#233;m daquelas ainda n&#227;o iniciadas.

Fortalecendo a resili&#234;ncia da natureza e das pessoas: Al&#233;m da mitiga&#231;&#227;o, os pa&#237;ses precisam adaptar suas estrat&#233;gias de conserva&#231;&#227;o &#224;s novas realidades clim&#225;ticas, conectando a prote&#231;&#227;o da biodiversidade &#224; adapta&#231;&#227;o. Isso requer investimento e aten&#231;&#227;o &#224; agenda de adapta&#231;&#227;o do Acordo de Paris, bem como a identifica&#231;&#227;o de oportunidades pr&#225;ticas de sinergia em n&#237;veis nacional e local. Um exemplo inspirador &#233; o compromisso intergovernamental de proteger recifes de corais resilientes ao clima &amp;mdash; iniciativa que a WCS incentiva os pa&#237;ses a aderirem, promovendo resili&#234;ncia para comunidades costeiras.

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Financiamento clim&#225;tico inovador para a natureza

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Fundo Floresta Tropical para Sempre (TFFF): Desenvolvido pelo Brasil com outras na&#231;&#245;es de florestas tropicais, o Banco Mundial, a WCS e parceiros, o TFFF pode se tornar o maior mecanismo de financiamento j&#225; criado para florestas tropicais. Garantir sua capitaliza&#231;&#227;o e rigor t&#233;cnico antes da COP30 ser&#225; fundamental &amp;mdash; a WCS conclama os governos a colaborar com o Brasil para assegurar o sucesso de longo prazo do TFFF.

Lideran&#231;a Ind&#237;gena e Justi&#231;a Clim&#225;tica: A WCS apoia as demandas dos Povos Ind&#237;genas para a COP30 e reconhece o valor do conhecimento e da lideran&#231;a ind&#237;gena como fundamentais para a a&#231;&#227;o clim&#225;tica. &#201; necess&#225;rio ampliar o financiamento direto a povos e organiza&#231;&#245;es ind&#237;genas, fortalecendo a governan&#231;a e a gest&#227;o territorial, al&#233;m de garantir que suas estrat&#233;gias de mitiga&#231;&#227;o e adapta&#231;&#227;o sejam incorporadas &#224;s pol&#237;ticas nacionais e internacionais. A participa&#231;&#227;o ativa dos Povos Ind&#237;genas e comunidades tradicionais nas decis&#245;es &#233; essencial para construir solu&#231;&#245;es clim&#225;ticas justas, eficazes e baseadas em direitos.

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    <dc:creator>Simoes, Samuel</dc:creator> 
    <pubDate>Fri, 07 Nov 2025 05:43:00 GMT</pubDate> 
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